Artigo

Pe. Carlos Renato Carriço Gomes

OLHAR NOSSA INTERIORIDADE

Por Pe. Carlos Renato Carriço Gomes

 

Somos tocados pela consciência de existirmos e colocados na dramática aventura do viver. Viver é ao mesmo tempo interioridade, beleza, inspiração, alegria, mas, também exterioridade, feiura, perecimento e tristeza. Contrários que se estabelecem no acontecer da vida. E neste acontecer podemos andar caminhos longos exteriormente e nos esquecer de nosso caminho interior que clareia a verdade do ser e nos coloca mais inteiros nas dinâmicas da existência. A interioridade é o que fundamenta as estruturas do ser humano. São as estradas interiores que levam à realização de cada pessoa, única e irrepetível.

Nosso mundo atual, tende a nos colocar com o olhar muito para fora de nós mesmos, desapercebidos daquilo que nos atinge mais profundamente. Corremos o grande risco de tornarmo-nos estranhos a nós mesmos e como consequência disso, ficarmos sem reconhecer nossa origem, sem saber por onde ir, como caminhar e para onde ir. E sem saber quem é e para onde vai, o ser humano perde-se de si mesmo. Suas relações se desestruturam e ele se desumaniza e desumanizado interfere na desumanização dos outros seres humanos.

É por isso que é urgente recobrar o nosso olhar para nossa interioridade. Um olhar que veja e escute com o coração, que sinta com a profundidade do ser em nós, que nos leve a sermos corajosos para enfrentar nossos dilemas interiores com a fortaleza de quem em Deus pode mergulhar na profundidade de suas perguntas, angústias, medos e inseguranças. Um olhar que não julgue, mas no acolhimento das fragilidades e limitações traga a cura para o coração ferido. Um olhar que nos faça ir além do que já alcançamos de nós e deseje ser mais do que se está sendo. Um olhar humano para o humano em nós.

Jesus Cristo tinha um olhar que buscava e enxergava a interioridade das pessoas. Um olhar que queria despertar na pessoa o seu próprio olhar para o seu interior. No Evangelho de João, capítulo 1, versículo 38, Jesus diz aos discípulos: “O que estais procurando?” Esta pergunta lançada aos seus ouvidos, quer os fazer chegar aos seus corações e perceber quais são suas motivações mais profundas, aquilo que os move, o que os faz buscar de dentro para fora. Despertados por esta pergunta de Jesus, devemos também no agora de nossas vidas, nos perguntar por nosso interior, por nossas convicções de fé e de vida, por nossos significados e sentidos interiores que nos fazem viver. Ao realizarmos isso, o horizonte da vida se alarga e podemos ir além do que já fomos dentro de nós mesmos.

Assim, caminhamos para dentro, para um lugar dentro de nós que nos encanta: o coração. E Jesus no Evangelho de Mateus, capítulo 6, versículo 21, diz: “...pois onde está teu tesouro aí estará também o teu coração”. Estas palavras de Jesus nos apontam a uma busca pelo tesouro que nos realizará como pessoas e que quem nos indicará que o encontramos é o coração. Ele é o caminho onde entra o amor, ele é o lugar do acontecimento da afetividade e da sexualidade, ele é a ponte que nos une as respostas de nossas perguntas, ele é a ancora que nos fará seguros diante do tesouro encontrado, mas o coração para alcançar tudo isso precisa estar em Deus, nos diz Jesus. Deus é a fonte da vivacidade do coração. Ele é o tesouro que a alma procura. Ele é a fonte da Vida. Isso significa que olhar para a nossa interioridade é perceber Deus que habita em nós, no cômodo mais profundo de nosso castelo interior, nas entranhas mais distantes de nossa alma. É Deus em nosso coração que pode nos tirar das armadilhas que este próprio coração pode nos armar, pois por vezes, pode se enganar em caminhos ilusórios que não lhe podem trazer a verdadeira realização, mas ao mesmo tempo, o coração é o lugar de onde Deus escolhe olhar através de nós.

O autor Antônio Saint-Exupéry, no livro O Pequeno Príncipe diz: “Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”. Estas palavras nos convidam a olhar para nossa interioridade com o olhar do coração, com o olhar de Deus em nós a nos perguntar sobre o essencial de nossas vidas. É o coração que olha o próprio coração, o Ser que olha o próprio ser. A interioridade é essencialidade. É lugar da inteireza. É o olhar que busca o principal, o mais importante, o que não pode faltar, o primordial. É essa atitude que faz com que o ser humano esteja sustentado nas tempestades da vida. É esse modo de ver que o faz ir além do que consegue enxergar. A interioridade é lugar de encontro consigo mesmo. É lugar de amizade com nosso ser. É lugar de abertura e não de fechamento. É lugar de libertação e não de escravidão. É lugar de preparo para ser com e para os outros. É lugar de liberdade interior. É lugar de olhar para si mesmo diante do espelho e responder: Quem é você? É lugar de descobertas. É lugar de descanso. É lugar de esperança.

No diálogo do exterior com o interior devemos buscar o equilíbrio que nos faz caminhar num processo de abertura à vida. A interioridade não é para nos aprisionar num egoísmo improdutivo, mas é lugar de cultivo do essencial que nos faz viver a nossa existência que nunca é vivida de modo isolado, mas sempre junto, numa vida compartilhada com o outro. É um estar só para ser capaz de estar junto. A interioridade nos faz olhar a realidade de dentro para estarmos mais seguros e livres para encontrar a realidade que está fora. Mergulhemos nos caminhos de nossa interioridade para vivermos a aventura de descobrir o que Deus sonhou quando quis que nós existíssemos. Que seja uma atitude hoje, no agora de nossas vidas, o olhar para a nossa interioridade.