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DA ACELERAÇÃO A CONTEMPLAÇÃO: a vivência do rito como dom divino

O sociológico polonês Zygmunt Bauman, estudioso da chamada “pós-modernidade”, com a célebre “Modernidade líquida”, nos ajuda a refletir sobre a aceleração do mundo pós-moderno e, consequentemente, a sua falta de percepção e contato com a realidade. Essas características do homem de hoje permitem-no experimentar o mundo numa velocidade vertiginosa, mas com superficialidade, faltando-lhe a percepção da realidade que impregna solidez e memórias.

Nesse sentido, devido a velocidade da vivência, o excesso de informação e a pouca experiência afetiva, o homem pós-moderno vive a exacerbação da informação, porém, carente de marcas profundas que preencham o seu ser. A experiência que marca a sociedade de hoje é a de uma promessa de felicidade, ou seja, os sujeitos estão cada vez mais ansiosos, tristes e sobrecarregados, associando o prazer momentâneo oferecido pelo consumo à felicidade. Como esse prazer é passageiro, o sujeito sente a necessidade de buscá-lo constantemente, na tentativa de alcançar a felicidade.

O uso das tecnologias e o excesso de redes sociais, quase que por 24h faz com que o sujeito experimente realidades virtuais, anestesiando-o do mundo real e sobretudo, da sua interioridade. Por isso, Bauman fala de uma modernidade líquida, onde, por vezes, não se tem contato com a realidade.

A Igreja está sendo impactada diretamente por este “novo estilo líquido”. Percebe-se cada dia mais a oferta de variados eventos na tentativa de preencher o vazio de Deus no coração do homem, e, por parte deste, uma busca incessante, porém, vazia da interioridade de experimentar verdadeiramente o Sagrado. Assim, não há dissociação do homem social para o homem eclesial, pois aquele e este são o mesmo, uma única pessoa, porém, em dois ambientes. Num ambiente social, a agilidade, rapidez, excesso de informações e experiência, num ambiente eclesial, um convite a desligar-se do mundo para ouvir a Deus, no silêncio, na meditação, na celebração.

Na Liturgia Eucarística, o sacerdote, após tendo apresentado as oferendas, faz um convite aos fiéis dizendo: “Orai, irmãos e irmãs, para que o sacrifício da Igreja, nesta pausa restauradora na caminhada rumo ao céu, seja aceito por Deus Pai todo-poderoso”, mas, como parar se o homem está perdendo a capacidade de contemplar? O que apresentar a Deus se falta ao sujeito a experiência da conexão consigo mesmo, com Deus e com o próximo? Como celebrar esta pausa restauradora se a celebração ritual é complexa e demorada demais? Esta e tantas outras perguntas permeiam a nossa reflexão, afinal, enquanto o mundo moderno propõe a aceleração, o rito convida a contemplação como dom, encontro com Deus.

A celebração litúrgica é uma celebração ritual, ou seja, o rito é uma ação programada e definida, possuindo uma ordem que protege contra o imprevisto e o imediatismo, conforme alega Dom Armando Bucciol (BUCCIOL, 2018, p. 170). Por sua vez, o rito necessita de concentração e de repetição, que circunda a pessoa por inteira, criando-lhe sentimentos e envolvendo-a no mistério. A ação ritual é uma ação celebrativa, repito, necessita do homem por inteiro, desprovido de qualquer realidade que o possa desligar do contato com o divino que o rito propõe, porém, qualquer distração, como o uso do celular durante a celebração litúrgica, por exemplo, faz com que o fiel perca a conexão com a realidade sagrada. Se o rito não lhe interessa, rapidamente é possível interagir com uma outra realidade totalmente diversa e por vezes, a ele, mais atraente.

Eis o desafio do rito: envolver o fiel numa participação consciente, ativa e frutuosa, conforme deseja o Concílio Vaticano II (cf. SC 48). Assim, urge em meio a modernidade líquida, o árduo desafio de reeducar os fiéis para a celebração litúrgica, para que eles não assistam ao mistério de fé como estranhos ou expectadores. “Por isso, a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não assistam a este mistério de fé como estranhos ou expectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, piedosa e ativamente, por meio de uma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos na palavra de Deus; alimentem-se na mesa do corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que dia após dia, por meio de Cristo mediador progridam na união com Deus entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos” (cf. SC 48).

O rito conduz o fiel a um encontro, único, irrepetível, juntamente com a assembleia litúrgica que se reúne para celebrar os mistérios da fé. Eis a grande beleza da Liturgia, promover o encontro de Deus com os homens e dos homens com Deus. O Papa Francisco, na carta apostólica Desiderio Desideravi aborda essa dimensão do encontro ao dizer: “A Liturgia nos garante a possibilidade desse encontro. Não nos serve uma vaga recordação da Última Ceia: nós precisamos estar presentes naquela Ceia, a fim de poder escutar a sua voz, comer do seu Corpo e beber do seu Sangue: nós precisamos d’Ele. Na Eucaristia e em todos os Sacramentos, é garantida a nós a possibilidade de encontrar o Senhor Jesus e de ser alcançados pelo poder da sua Páscoa. O poder salvífico do sacrifício de Jesus, de cada palavra sua, cada gesto, olhar e sentimento, chega até nós na celebração dos Sacramentos. Eu sou Nicodemos e a Samaritana, o possesso de Cafarnaum e o paralítico na casa de Pedro, a pecadora perdoada e a hemorroísa, a filha de Jairo e o cego de Jericó, sou Zaqueu e Lázaro, o ladrão e Pedro perdoados. O Senhor Jesus, que “imolado, já não morre; e, morto, viver eternamente” continua a perdoar-nos, curar-nos e salvar-nos com o poder dos Sacramentos. É a forma concreta, por meio da Encarnação, com a qual Ele nos ama; é a maneira pela qual Ele sacia essa sede por nós, declarada na cruz (Jo 19,28)” (cf. DD 11).

Portanto, hoje, somos convidados a sair da aceleração para a contemplação e a viver o rito como dom divino, como gratuidade da salvação recebida na fé. Diante de uma liquefação da realidade, o rito nos convida à gratuidade do encontro, saindo da lógica do virtual para o real. Neste sentido, o rito tem em sua fonte a alegria, uma alegria que gera encontro, partilha, contemplação. Hoje, os fiéis precisam reaprender a entrar no mistério promovido pelo rito, a contemplar o silêncio e perceber o vazio. O rito é dom e, portanto, graça de Deus vivida na Sua Igreja.

Por fim, na Desiderio Desideravi (21), o Papa Francisco convida todos os cristãos a redescobrirem, a cada dia, a beleza da verdade da Celebração cristã para que a Liturgia seja o antídoto contra a praticidade. No rito não há praticidade, mas sim celebração, vivência; a praticidade permite moldar a Liturgia, a celebração precisa seguir o rito para gerar aproximação. Não basta apenas conhecer Jesus Cristo, é preciso fazer uma experiência. A experiência tem um caminho e este se chama rito. Para contemplar as belezas do caminho, é preciso desacelerar, contemplar.

 

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Autor:

Padre Cristian Vieira

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