A participação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim na COP30, realizada em Belém (PA), marcou profundamente os seus representantes. Na manhã desta segunda-feira, 24 de novembro, em entrevista à Rádio Diocesana, a delegação — formada por Ana Cláudia da Silva Costa, presidente da Cáritas Diocesana; Rayane Espolador de Almeida, coordenadora de projetos da Cáritas; e José Arcanjo Nunes, coordenador da Pastoral da Ecologia Integral — fez um balanço detalhado da experiência, trazendo para o público local um panorama vivo do que presenciaram no maior evento climático do planeta.
Logo no início da conversa com o radialista André Luiz de Matos, ficou evidente o entusiasmo dos três representantes. Ana Cláudia, a primeira a falar, descreveu o impacto da presença e atuação da Igreja Católica na conferência. “Nós fomos convidados pela Cáritas Brasileira, que já tinha espaços reservados na Zona Azul, na Zona Verde e também em áreas externas da COP. Mas o que vimos ali superou qualquer expectativa”, afirmou. “Encontramos cardeais, religiosas, padres de vários países, todos profundamente envolvidos com as questões climáticas. Era realmente a Igreja em saída de que fala o Papa Francisco. A Igreja estava presente, ativa e com propriedade nos debates.”
Segundo ela, o acolhimento inicial recebido por Dom Teodoro Mendes Tavares foi inspirador. “Ele disse pra nós: ‘Estamos aqui porque acreditamos que é possível mudar. A esperança nunca decepciona’. E essa fala nos acompanhou o tempo todo. A COP foi um espaço de esperança, mas também de urgência.”
Rayane Espolador, que participou principalmente da Cúpula dos Povos, relatou a força da mobilização social. “A Cúpula foi um espaço riquíssimo”, contou. “Movimentos sociais, povos tradicionais, organizações da sociedade civil… todo mundo ali discutindo justiça climática com seriedade. Passaram mais de setenta mil pessoas por aquele espaço. Era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que a gente precisou se dividir para aproveitar ao máximo.”
Ela destacou a elaboração da Carta da Cúpula dos Povos como um dos momentos mais relevantes. “Essa carta denuncia que a crise climática é fruto de um modelo capitalista e do imperialismo corporativo. E reafirma: quem mais sofre são os povos indígenas, periféricos e tradicionais.” Entre as reivindicações do documento, Rayane citou “reforma agrária, agroecologia, desmatamento zero, combate ao racismo ambiental, fim das falsas soluções de mercado, justiça feminista e transição energética justa”.
Mas o que mais emocionou a coordenadora foi a participação de crianças e adolescentes de diferentes países. “Elas apresentaram a própria carta, entregue ao presidente da COP30. E disseram com todas as letras: ‘Queremos um futuro seguro, queremos ações urgentes agora’. Foi de arrepiar. Era uma infância politizada, consciente, pedindo árvores, rios limpos, animais protegidos e participação nas decisões. Uma força que nos responsabiliza ainda mais.”
A expectativa para esta COP, segundo o coordenador diocesano da Pastoral da Ecologia Integral, José Arcanjo Nunes, era de que fosse “a COP da verdade”, voltada à implementação efetiva das ações já prometidas ao longo da última década. “Os estudos mostram que a temperatura do planeta já subiu um grau e meio. Isso é irreversível. Não estamos falando de futuro: já estamos vivendo eventos extremos, como enchentes gigantescas, secas severas, ondas de calor.” Ele lembrou de tragédias recentes, como a enchente no Rio Grande do Sul e os alagamentos em municípios do Sul do Espírito Santo: “Isso já está batendo na nossa porta. A pergunta agora é: como vamos conviver com isso?”
Arcanjo explicou que, embora não tenha havido consenso para incluir no documento final a redução dos combustíveis fósseis, o tema avançou no debate internacional. “O presidente da COP afirmou que teremos mais um ano de discussão exclusivamente sobre isso. E já há países se mexendo. A Colômbia, por exemplo, vai se reunir em abril para discutir como vai enfrentar a redução dos combustíveis fósseis. Isso tende a influenciar o mundo.”
Ele destacou ainda o avanço no reconhecimento da agricultura familiar e da agroecologia como caminhos concretos para enfrentar o aquecimento global. “Pela primeira vez, apareceu com clareza a agricultura familiar como solução. Porque ela produz alimento sem depender dessa lógica de energia fóssil, sem usar tanto adubo químico. Isso é um marco.”
Outro ponto que ganhou força, segundo ele, foi a valorização das comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais. “Foram 29 documentos aprovados. Em quatro deles, os povos indígenas são citados como fundamentais para enfrentar as mudanças climáticas. E isso não é retórica. Na COP inteira, ouvimos uma frase repetida: ‘Se a floresta amazônica ainda está de pé, é graças aos povos indígenas e tradicionais’.”
Ele relatou ainda a visita da delegação a uma comunidade quilombola próximo a Belém: “Eles mantêm a floresta em pé e produzem alimento dentro dela. Açaí, cupuaçu, tudo de forma natural. É um exemplo vivo de que é possível preservar e produzir ao mesmo tempo.”
Quando questionado sobre a ausência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Arcanjo foi direto: “Não percebemos nenhum clima de indisposição. Claro que seria importante ter os EUA lá, por sua força econômica. Mas a COP aconteceu plenamente. A delegação brasileira, a presidência da conferência e toda a articulação deram conta do recado. O público estava animado, determinado. Porque a crise climática não espera.”
Ao final da entrevista, os três representantes reforçaram que a participação da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim na COP30 não termina em Belém: continua agora, nas comunidades, paróquias e iniciativas pastorais. “Voltamos com o coração aquecido, mas também carregado de responsabilidade”, resumiu Ana Cláudia. “A Igreja tem um papel fundamental. Precisamos traduzir tudo que vimos e ouvimos em ações concretas. E vamos fazer isso.”
A delegação garante que as experiências vividas serão levadas para formação de lideranças, projetos socioambientais, diálogos comunitários e novas ações de ecologia integral. “A COP nos deu esperança”, disse Rayane. “E esperança, como disse Dom Teodoro, não decepciona.”
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