O Catecumenato: um caminho marcado por ritos na vida das Comunidades Eclesiais de Base

Pe. Carlos Henrique Dias, Assessor Diocesano para Iniciação Cristã

A Igreja não improvisa a fé. Ela a gera, acompanha e celebra. Desde os primeiros séculos, o catecumenato foi o caminho ordinário de iniciação cristã, estruturado em etapas e profundamente inserido na liturgia. Nosso Diretório Diocesano da Vida Sacramental recorda que os sacramentos estão a serviço da santificação das pessoas e da edificação do Corpo de Cristo . Por isso, o processo catecumenal não é apenas formativo; ele é essencialmente litúrgico e comunitário.

Compreender os ritos do catecumenato é compreender como a Igreja educa na fé celebrando. Cada etapa tem sua graça própria e sua expressão litúrgica.

O processo começa com o pré-catecumenato, tempo do primeiro anúncio, do despertar da fé e da conversão inicial. Ainda não há um rito sacramental propriamente dito, mas a Igreja já acolhe e acompanha. Podem ser realizadas celebrações da Palavra, bênçãos e momentos orantes. É um tempo missionário, muito ligado à vida concreta da Comunidade Eclesial de Base: visita às famílias, escuta da história de vida, inserção nos Círculos Bíblicos. Liturgicamente, este tempo se expressa na participação progressiva nas celebrações dominicais, ainda sem os compromissos próprios do catecúmeno. É o momento do querigma.

Quando a pessoa manifesta o desejo sincero de seguir Cristo, celebra-se o Rito de Entrada no Catecumenato. Este rito é litúrgico e normalmente realizado dentro de uma celebração da Palavra ou da Santa Missa. Nele, o candidato é acolhido publicamente pela Igreja, recebe o sinal da cruz e passa a ser chamado catecúmeno. Aqui já há um vínculo especial com a Igreja, como recorda o Código de Direito Canônico (cf. cân. 206) . A comunidade não é espectadora: ela testemunha, acolhe e se compromete.

Segue-se o tempo do catecumenato, que pode ser mais longo. É um período de catequese orgânica, participação mais intensa na liturgia da Palavra e inserção na vida comunitária. Liturgicamente, os catecúmenos participam da Missa até a Liturgia da Palavra e, conforme o costume, podem ser despedidos antes da Liturgia Eucarística, destacando que ainda caminham para a plena participação sacramental. Durante esse tempo, celebram-se ritos próprios: bênçãos, exorcismos menores e as chamadas “entregas” — do Símbolo da Fé (Credo) e do Pai-Nosso. Esses ritos acontecem dentro da assembleia litúrgica e marcam o crescimento da fé. Não são gestos simbólicos isolados; são passos reais de amadurecimento espiritual.

O passo seguinte é o tempo da purificação e iluminação, normalmente vivido na Quaresma. É um período mais espiritual e contemplativo do que catequético. Liturgicamente, inicia-se com o Rito da Eleição ou Inscrição do Nome, geralmente presidido pelo Bispo, manifestando a comunhão diocesana. A partir daí, os catecúmenos passam a ser chamados “eleitos”. Durante os domingos da Quaresma, celebram-se os Escrutínios, que são ritos penitenciais com imposição das mãos e oração de libertação e fortalecimento. Esses escrutínios estão profundamente ligados às leituras quaresmais, sobretudo dos Evangelhos do Ano A (Samaritana, Cego de Nascença e Lázaro), que iluminam o caminho interior dos eleitos. Tudo acontece no coração da liturgia dominical, mostrando que a conversão é obra da graça celebrada na Igreja.

O ponto culminante é a celebração dos Sacramentos da Iniciação Cristã na Vigília Pascal. Batismo, Confirmação e Eucaristia são celebrados na noite santa, centro de todo o Ano Litúrgico. Não é uma escolha pastoral aleatória; é a própria teologia da Igreja que une iniciação cristã ao Mistério Pascal. Ali, na luz do Círio Pascal, a comunidade testemunha o novo nascimento dos seus filhos na fé.

Após a celebração, inicia-se o tempo da mistagogia. Muitas vezes negligenciado, ele é essencial. Mistagogia significa aprofundamento do mistério. Liturgicamente, esse tempo está ligado ao Tempo Pascal. Os neófitos participam da Eucaristia com novo olhar, aprofundam o sentido dos sacramentos recebidos e se inserem mais plenamente na missão. O Catecismo recorda que os sacramentos supõem a fé e a alimentam ; a mistagogia é justamente esse alimento continuado.

Percebemos, assim, que o catecumenato não acontece à margem da liturgia. Ele é conduzido pela liturgia. Cada etapa é marcada por ritos celebrados na assembleia, especialmente no domingo, dia do Senhor. A Comunidade Eclesial de Base não apenas organiza encontros formativos; ela celebra o caminho dos seus catecúmenos, reza por eles e se deixa renovar por seu testemunho.

Para nós, padres, isso exige fidelidade às orientações da Igreja e do nosso Diretório Diocesano , evitando improvisações ou reduções do processo. Para os catequistas, significa compreender que cada rito é um momento de graça que deve ser preparado com zelo, dignidade e sentido espiritual.

O catecumenato nos ensina que a fé cresce quando é celebrada. E nossas Comunidades Eclesiais de Base, quando vivem intensamente esse processo, tornam-se verdadeiras escolas de discipulado e comunhão. Que saibamos valorizar cada etapa, cada rito e cada celebração, formando discípulos enraizados na Palavra, alimentados pela Eucaristia e comprometidos com a missão.

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Autor:

Pe. Carlos Henrique Dias

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