Onde Há Violência, Deus Não Habita

Kelvyn Mantuan 

 

O dia 25 de novembro, Dia Internacional para Eliminação da Violência contra as Mulheres, não é apenas uma data de conscientização. É um grito coletivo que atravessa séculos de silêncio, submissão e injustiças — um clamor que convoca a humanidade a romper estruturas patriarcais que ainda legitimam a dor, a exclusão e a desumanização do feminino. Esta data se torna um chamado profético para revisitar a fé, a Bíblia e a imagem de Deus.

Refletir sobre Deus e a violência contra as mulheres na Bíblia é assumir uma postura ética e espiritual diante das realidades concretas da vida. É reconhecer que a religião, quando interpretada de forma equivocada, pode se tornar cúmplice da opressão; mas, quando relida a partir dos olhos da justiça, da dignidade e da misericórdia, transforma-se em fonte de liberdade, cura e restauração da vida.

A violência doméstica está em total oposição ao plano de Deus para as famílias. Gênesis 1 e 2 apresentam a criação do homem e da mulher como um encontro de igualdade, comunhão e reciprocidade: “ajuda conveniente”, não no sentido de servidão, mas de parceria. Efésios 5,21 recorda que o casamento deve ser vivido na submissão mútua, expressão de respeito, cuidado e amor abnegado. Portanto, qualquer forma de agressão — física, emocional, sexual, moral ou espiritual — contradiz radicalmente o Evangelho e a vontade de Deus.

Mas é preciso ir além dos versículos conhecidos. Por trás de muitas narrativas bíblicas repousa um silêncio: o silêncio dos corpos feridos, dos nomes apagados, das histórias não contadas. Não se trata de um silêncio neutro, mas de uma denúncia das relações de poder e privilégios que apagaram a presença e a voz das mulheres na história da salvação. Esse silêncio nos convoca a uma releitura responsável: não para perpetuar a injustiça, mas para transformar a interpretação em libertação.

Interpretar a Bíblia é sempre um ato ético e espiritual. A Palavra de Deus não pode ser reduzida a um exercício técnico, frio ou desconectado da vida. Textos bíblicos têm força: podem libertar, mas também podem ferir; podem denunciar desigualdades, mas também podem ser mal utilizados para justificá-las. Por isso, interpretar não é apenas compreender o passado — é converter o presente.

Durante séculos, o imaginário patriarcal construiu a imagem da mulher como tentação, erro, perigo ou propriedade. Essa visão distorcida ainda sustenta violências, abusos, descrédito e controle sobre os corpos e as escolhas das mulheres. No entanto, os Evangelhos nos oferecem uma revolução silenciosa e divina. Jesus rompe os padrões de sua época: Ele fala com mulheres, escuta-as, aprende com elas, permite-se ser cuidado e sustentado por elas. Maria, sua mãe; Maria Madalena; Joana; Marta; as mulheres no caminho do Calvário e tantas outras não são figurantes — são protagonistas, anunciadoras do Reino, testemunhas da ressurreição. O primeiro anúncio do Cristo ressuscitado foi feito por uma mulher — e isso não foi um acaso, foi evangelho.

Neste 25 de novembro, nosso compromisso como cristãos, cidadãos, intérpretes da Bíblia e pessoas de fé é claro: lutar para que nenhuma mulher tenha sua vida ameaçada por ser mulher; para que suas vozes não sejam silenciadas; para que seus dons sejam reconhecidos e seus testemunhos valorizados. A fé cristã não compactua com a violência — ela a denuncia. Não silencia — ela profetiza. Não exclui — ela acolhe.

Que a mesa do Evangelho — onde todos têm lugar — inspire nossa forma de viver a fé: com escuta, fraternidade, igualdade e reverência pela dignidade feminina. Que nossas comunidades continuem sendo espaços de cuidado, proteção, liberdade e protagonismo das mulheres.

Jesus disse: “Onde dois ou mais estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles.” (Mt 18,20) Mas ouso dizer: onde há violência, Deus não habita.

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Autor:

Kelvyn Oliveira

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