Kelvyn Oliveira Mantuan
Na Mensagem para o 60º Dia das Comunicações Sociais, o Papa Leão IV oferece uma reflexão profunda e urgente sobre o futuro da comunicação humana em um mundo cada vez mais mediado por tecnologias digitais e inteligência artificial. Sob o tema “Preservar vozes e rostos humanos”, o Pontífice nos convida a olhar além da inovação técnica e a reconhecer o valor sagrado e irrepetível da pessoa humana. (Leia na íntegra)
Desde o início, o Papa afirma que o rosto e a voz são traços únicos e constitutivos da identidade. São sinais visíveis e audíveis da singularidade de cada ser humano, criados à imagem e semelhança de Deus. Não se trata apenas de características biológicas, mas de expressões profundas da alma, da história e da vocação de cada pessoa. Preservar rostos e vozes, portanto, é preservar a própria humanidade e o reflexo do amor divino em cada indivíduo.
Essa reflexão ganha força diante dos desafios dos ecossistemas informativos contemporâneos, nos quais sistemas digitais e algoritmos passam a simular vozes, rostos, emoções e até relações. O Papa alerta que, se não houver discernimento, a tecnologia pode alterar pilares fundamentais da civilização humana, interferindo não apenas na forma como nos informamos, mas também na maneira como nos relacionamos. Quando máquinas imitam empatia, amizade e consciência, corremos o risco de substituir vínculos autênticos por simulações superficiais.
O Pontífice ressalta que o verdadeiro desafio não é tecnológico, mas antropológico. A questão central não está no que as máquinas podem fazer, mas em quem nos tornamos ao utilizá-las. Renunciar ao pensamento próprio, à criatividade e à imaginação em favor de sistemas automatizados significa, nas palavras do Papa, enterrar os talentos recebidos de Deus e silenciar a nossa própria voz. É um risco de empobrecimento interior, cognitivo, emocional e espiritual.
Outro ponto sensível da mensagem é a crítica aos algoritmos que priorizam engajamento rápido, emoções imediatas e polarização social. Ao favorecer reações impulsivas e bolhas de consenso fácil, essas tecnologias podem enfraquecer a escuta, o pensamento crítico e o diálogo verdadeiro. Além disso, a confiança acrítica em sistemas de inteligência artificial — vistos como “oráculos” modernos — pode reduzir a capacidade humana de discernir, interpretar e compreender profundamente a realidade.
O Papa também chama atenção para a simulação das relações humanas, especialmente por meio de chatbots e influenciadores virtuais. Ao imitarem sentimentos e comportamentos, esses sistemas podem criar a ilusão de proximidade e afeto, enganando sobretudo os mais vulneráveis. A tecnologia, quando explora a necessidade humana de vínculo, pode invadir a intimidade emocional e afetar não apenas indivíduos, mas o próprio tecido social, cultural e político.
Somam-se a esses desafios as distorções conhecidas como BIAS, que podem reforçar preconceitos, estereótipos e desigualdades, além da dificuldade crescente de distinguir entre realidade e ficção em um ambiente saturado de informações imprecisas ou mesmo falsas. Em um mundo onde probabilidades estatísticas são apresentadas como verdades, torna-se urgente fortalecer a consciência crítica e a busca pela autenticidade.
Diante desse cenário, o Papa Leão XIV não propõe frear a inovação, mas orientá-la com sabedoria e responsabilidade. Ele aponta três pilares fundamentais para essa missão: responsabilidade, cooperação e educação. Responsabilidade significa transparência, honestidade, proteção do trabalho dos jornalistas e reconhecimento da informação como um bem público. Cooperação exige o envolvimento de todos os setores — da indústria tecnológica ao mundo acadêmico, dos legisladores aos comunicadores — na construção de uma cidadania digital ética. Educação, por sua vez, implica formar pessoas capazes de avaliar fontes, compreender interesses ocultos e desenvolver uma cultura comunicacional saudável.
Na conclusão, o Papa destaca a necessidade de introduzir, nos sistemas educacionais, a alfabetização midiática e em inteligência artificial, por meio do conceito de MAIL (Media and Artificial Intelligence Literacy). Essa formação visa capacitar as pessoas a usar a tecnologia como ferramenta — e não como substituta da consciência humana —, protegendo a privacidade, validando informações e preservando a autonomia intelectual.
Mais do que um alerta, a mensagem do Papa Leão XIV é um convite à esperança responsável e à vigilância amorosa sobre aquilo que nos torna verdadeiramente humanos. Ele nos recorda que o rosto e a voz precisam voltar a significar pessoa, presença, história, alma. Em um tempo em que imagens podem ser fabricadas e vozes replicadas, torna-se ainda mais urgente reafirmar o valor do olhar que reconhece, da voz que carrega verdade, do encontro que transforma.
Preservar rostos e vozes é, em última instância, preservar o mistério da existência humana, a dignidade que não pode ser programada e a liberdade que nenhuma máquina pode substituir. É proteger o espaço sagrado onde nascem a empatia, a fé, a criatividade e o amor. É garantir que, mesmo em meio às tecnologias mais avançadas, a comunicação continue sendo ponte e não muro, luz e não ruído, presença viva e não simulação.