Findo o Carnaval, a Quarta-feira de Cinzas marcou o início da Quaresma — os 40 dias que antecedem a celebração da Páscoa — com igrejas cheias e fiéis dispostos a viver um tempo de penitência, reflexão e mudança de vida. Para muitos católicos, a principal promessa é a abstinência de carne vermelha às sextas-feiras. Outros vão além: há quem decida praticar o celibato, deixar o refrigerante de lado ou intensificar a vida de oração.
Na manhã desta quarta-feira, 18 de fevereiro, a missa das 9h já estava lotada na Catedral de São Pedro, localizada na Rua Costa Pereira, no Centro de Cachoeiro de Itapemirim. A celebração foi presidida pelo bispo diocesano, Dom Luiz Fernando Lisboa, CP, e concelebrada pelo bispo emérito da Diocese de Santos (SP), Dom Tarcísio Sacaramussa, além dos padres Bruno Sá Rangel e Evaldo Praça Ferreira.
Durante a celebração, os fiéis formaram fila para receber a tradicional imposição das cinzas na testa, gesto que simboliza a fragilidade humana e o chamado à conversão.
Em sua homilia, Dom Luiz destacou o sentido profundo do rito. “As cinzas são para nos lembrar que nós somos corpo e à terra nós vamos voltar. E também para nos levantarmos das nossas cinzas, das nossas fragilidades, dos nossos fracassos, dos nossos problemas, e trabalharmos nesse tempo da Quaresma com aquilo que ela propõe: a oração, o jejum e a caridade”, afirmou.
O bispo reforçou que o período é um convite à transformação. “Que nós possamos, unidos pela Palavra de Deus, por Jesus, nosso Salvador, melhorar nossa vida, dar passos, sair das cinzas para ressuscitar. A Quaresma é o tempo que nos prepara para a ressurreição de Jesus, mas também para a nossa ressurreição, para uma vida nova que todos nós queremos.”
Entre os fiéis estava Roseli Alves Brandão, que decidiu assumir propósitos mais rigorosos neste ano. Além de passar 40 dias sem consumir carne vermelha, ela também optou pelo celibato.
“Quarta-feira de Cinzas representa tempo de silêncio, oração, para lembrar tudo aquilo que Jesus passou por nós”, disse.
Roseli contou que aproveitou a manhã livre para começar o dia na igreja. “Hoje eu não vou trabalhar de manhã, então eu vim cedo. Eu fiz retiro de Carnaval em Castelo e, para complementar, vim para a missa logo cedo. É importante começar o dia assim. Se a gente tem essa oportunidade, já comece. A gente precisa tirar sempre um tempo do nosso dia para apresentar ao Senhor.”
Para a Carla Gabriela Martins, a vivência da fé também é um compromisso familiar. Ao lado do esposo e dos filhos, Kemilly, de 4 anos, e Richard, de 9, ela fez questão de participar da celebração e transmitir aos pequenos o significado do momento.
“Quando penso na Quarta-feira de Cinzas, lembro o quanto somos pecadores, mas acreditamos na misericórdia de Deus. A gente vem em busca da salvação. É o pontapé da Quaresma”, afirmou.
Carla explicou que a preparação começou ainda na madrugada. “Nós começamos com o Rosário e fomos à Penitência. É momento de conversão, de reflexão, de recomeço. Mostrar para eles a vivência da fé é entender o mistério que está por trás de tudo o que vivenciamos. É de pequenininho que a gente ensina, para que no futuro eles busquem com as próprias pernas.”
Além do início da Quaresma, a data também marcou o lançamento da Campanha da Fraternidade deste ano, que traz como tema “Fraternidade e Moradia” e o lema inspirado no Evangelho de João (Jo 1,17): “Ele veio morar entre nós”.
Dom Luiz explicou que a campanha é um chamado concreto à prática da caridade. “A Campanha da Fraternidade nasceu para nos lembrar de que formas podemos praticar a caridade. Ela sempre toca numa chaga da sociedade, numa ferida. Neste ano, pela segunda vez, toca o tema da moradia — a primeira foi em 1993”, ressaltou.
Segundo o bispo, o problema habitacional no Brasil exige atenção urgente. “Nós temos cerca de seis milhões de moradias em déficit. Muita gente vive de forma indigna, em favelas, em casas inapropriadas. A campanha vem nos lembrar: o que podemos fazer? Quem sabe ressuscitar a Pastoral da Moradia, que já foi muito forte na Igreja do Brasil.”
Ele destacou ainda a necessidade de um olhar mais amplo para além das doações pontuais. “Não basta levar uma cesta básica. Como essa família vive? Como essa pessoa vive? Temos um número muito grande de moradores de rua e pessoas em condições sub-humanas. Essa deve ser uma preocupação nossa e de toda a sociedade, inclusive com lutas públicas que ajudem os mais pobres a viver com dignidade.”
Ao final da celebração, o pároco padre Bruno Sá Rangel conduziu a assembleia a um instante de silêncio profundo. Com voz mansa, convidou os fiéis a enxergarem além do gesto simbólico das cinzas.
“Que essa marca na nossa testa não seja apenas um sinal externo, mas um compromisso no coração. Deus não nos quer presos ao pó, mas transformados pelo amor. A Quaresma é esse caminho: reconhecer nossas fragilidades e permitir que Ele nos refaça.”
E, enquanto os fiéis deixavam a Catedral de São Pedro em passos lentos, ainda com o traço escuro na testa, a manhã parecia sussurrar a mesma mensagem: das cinzas brota a vida, do arrependimento nasce a esperança.
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