Na Quaresma, tia doa rim ao sobrinho e transforma fé em gesto concreto de amor em Cachoeiro

A Quaresma é, para os cristãos, um tempo de conversão, silêncio, oração e, sobretudo, de gestos concretos de amor. Em 2026, esse significado ganhou um rosto e uma história na vida de uma família de Cachoeiro de Itapemirim. Aos 62 anos, Rozangela Leida Secchim Ribeiro protagonizou um ato que ultrapassa palavras: ela doou voluntariamente um rim ao sobrinho, Henrique Silva Ribeiro, de 42 anos, devolvendo-lhe a saúde e renovando, na prática, o sentido da fé que professa.

Henrique enfrentava há anos um quadro de nefrite crônica, doença silenciosa que provoca inflamação progressiva dos néfrons e compromete de forma irreversível a função dos rins. Em Cachoeiro, ele era acompanhado pelo nefrologista Marcellus Gazola Grilo, que conduziu tratamento conservador com o objetivo de preservar ao máximo a função renal e retardar a necessidade de diálise ou transplante. Com o avanço da doença, no entanto, surgiu a indicação para preparar o acesso à hemodiálise.

Inseguro com a evolução do quadro, Henrique decidiu buscar uma segunda opinião na capital. Ao analisar os exames, o especialista foi direto: o caso era grave e exigia providências imediatas. “Ele disse que eu precisava fazer hemodiálise ou transplante ‘ontem’, que eu corria risco de vida. E o mais assustador é que eu não sentia nada”, relembra Henrique. O médico explicou que esse é justamente o perigo da doença renal: muitas vezes, ela evolui de forma silenciosa. O paciente pode parecer bem em um dia e, no outro, necessitar de diálise emergencial.

Encaminhado para acompanhamento em Vila Velha, Henrique iniciou os protocolos no Hospital Evangélico de Vila Velha, sob os cuidados do médico Hélio Reis Cyrino. A partir dali, a família entrou em uma nova etapa marcada por exames, incertezas e decisões difíceis.

Filho de um dos irmãos de Rozangela, Henrique perdeu a mãe há mais de oito anos, vítima de câncer de intestino. A relação entre tia e sobrinho, no entanto, sempre foi marcada por forte proximidade. “Eles são quatro irmãos, uma menina e três rapazes. Nós sempre tivemos uma ligação muito forte. Meu esposo, meus filhos e eu sempre estivemos muito próximos deles. Quando morávamos na praia, eles passavam férias conosco”, conta Rozangela. Sobre Henrique, ela não hesita: “Ele dormia no cantinho da minha cama. É como um filho para mim.”

O vínculo se aprofundou ainda mais ao longo dos anos. Quando Rozangela cursava técnico de Enfermagem, concluído em julho do ano passado, era Henrique quem a ajudava nas práticas. “Ele era meu ‘cobaia’. Eu aplicava injeção nele e fui aprendendo muito. Sempre acompanhei de perto o problema renal dele”, relembra.

Quando a possibilidade de transplante se tornou real, os familiares mais próximos passaram a ser avaliados como possíveis doadores. O pai, de 68 anos, não podia doar por questões de saúde. Os irmãos precisariam perder muito peso antes mesmo de iniciar os exames de compatibilidade. Diante desse cenário, a situação parecia cada vez mais angustiante.

Foi então que Rozangela tomou a decisão que mudaria a história da família. Ao receber a notícia de que o sobrinho precisaria de transplante, respondeu prontamente: “Eu dou meu rim. Dou até meu coração, mas eu quero esse menino bom.” A decisão foi imediata. “Eu não pedi licença nem para meu esposo nem para meus filhos. Eu disse que faria os exames e sustentei isso.”

Henrique recorda o momento em que foi agradecer à tia. “Eu perguntava: ‘Tia, você tem certeza?’ E ela dizia que tinha. Foi ali que eu entendi que Deus estava agindo.”

Para Rozangela, a escolha foi também expressão de fé. “Que cristã sou eu para negar isso a alguém que tem o meu sangue? Doaria até para outro, quanto mais para ele, que é como um filho para mim.”

Os exames começaram em agosto e se estenderam por meses. Foram incontáveis viagens entre Cachoeiro e a Grande Vitória. “Me viraram pelo avesso. Fiz todo tipo de exame possível, check-up completo, e tudo pelo SUS. Parecia que estávamos no melhor plano de saúde da face da Terra. O único gasto era combustível e alimentação”, relata.

A cada resultado, a confirmação da compatibilidade surpreendia a equipe médica. Segundo Rozangela, os próprios profissionais afirmaram que raramente viam uma compatibilidade genética tão forte entre doador e receptor, o que reduz significativamente o risco de rejeição.

Durante esse período, ela recusou propostas de trabalho em hospitais da cidade. “Eu não podia assumir um compromisso sabendo que, em breve, precisaria me afastar por meses. A vida do meu sobrinho estava em primeiro lugar.” A decisão gerou críticas e incompreensões. “Fui chamada de doida, de inconsequente. Diziam que, pela minha idade, eu não deveria fazer isso. Mas sou saudável, cuido da minha saúde e confiei na misericórdia de Deus.”

O apoio do marido, o Diácono Sérgio Ricardo Ribeiro, foi fundamental. “Ele disse: ‘O que você decidir, eu estou com você’. Foi meu braço forte o tempo todo.” Os filhos também apoiaram, mesmo com a preocupação natural, especialmente o que mora no exterior e atua na área científica.

A cirurgia foi marcada para o dia 10 de fevereiro. Tia e sobrinho foram internados juntos na véspera. Na manhã seguinte, pouco depois das seis horas, seguiram para o centro cirúrgico. A retirada do rim de Rozangela aconteceu primeiro; em seguida, o órgão foi transplantado em Henrique. “Assim que colocaram o rim, ele já funcionou. Na primeira irrigação, filtrou 11 litros. Foi emocionante. Deus não faz nada pela metade”, conta.

Henrique, casado e pai de uma menina de seis anos, hoje se recupera bem. Ele descreve o momento como um recomeço. “Eu ganhei mais do que um rim. Ganhei uma nova chance de viver, de acompanhar minha filha crescer.”

Para Rozangela, a experiência fortaleceu ainda mais os laços familiares e espirituais. “Se já éramos ligados pelo sangue, agora somos também por um órgão. Meu rim está nele, e o coração dele está comigo.”

Em pleno tempo quaresmal, a história da família se transforma em testemunho concreto de entrega e amor. Entre orações nas viagens, confiança nos médicos e coragem diante das críticas, o gesto de Rozangela traduz o que a Quaresma propõe: transformar fé em ação. “Nem todos podem doar um órgão”, conclui ela, “mas todos podem doar sangue, podem ajudar alguém. Doar é dar vida. E vida é o maior presente que podemos oferecer.”

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Autor:

Diocese Cachoeiro

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