Festa das Canoas reafirma fé e identidade do povo maratimba em Marataízes

Mais do que um evento religioso, a Festa das Canoas — também chamada de Festa da Praia ou Festa do Divino — é a maior expressão de fé e identidade cultural do povo de Marataízes, no litoral sul do Espírito Santo. Realizada sempre no segundo domingo de março, a celebração chega aos 116 anos como um dos mais marcantes patrimônios imateriais do litoral sul capixaba.

A tradição teve início em 1910, a partir de uma promessa feita por pescadores ao Divino Espírito Santo. Diante de um período de escassez, homens do mar recorreram à fé pedindo fartura na pesca. Com a graça alcançada, passaram a agradecer todos os anos com uma procissão marítima, missa solene e homenagens em alto-mar. Nascia ali uma celebração que atravessaria gerações.

A devoção ao Divino Espírito Santo, de origem portuguesa e trazida ao Espírito Santo por imigrantes açorianos no fim do século XIX e início do século XX, encontrou em Marataízes terreno fértil. A fé se misturou à rotina da pesca e moldou o calendário da cidade. Ao longo das décadas, a Festa das Canoas consolidou-se como símbolo maior da cultura maratimba.

Em 1952, o pesquisador Renato Pacheco registrou a força da celebração ao descrever a regata e os cânticos tradicionais entoados em homenagem aos que morreram no mar. Segundo relatos colhidos à época, os versos cantados em alto-mar pediam proteção e salvação aos pescadores, reafirmando o vínculo profundo entre fé e sobrevivência.

A semana que antecede os festejos é marcada por intensa mobilização comunitária. A bandeira do Divino percorre as casas, levada por devotos ao som do tambor. O estandarte, com a pomba branca envolta por fitas coloridas, é recebido com orações e rituais de proteção. Famílias beijam a bandeira, amarram fitas nos pulsos e renovam promessas, numa tradição que atravessa gerações.

Enquanto isso, no porto e nos quintais, os pescadores se dedicam aos preparativos das embarcações. Barcos são pintados, reparados e enfeitados com bandeirolas que atravessam da proa à popa. Antigamente, a calafetagem — técnica usada para vedar as tábuas com fio e massa — era realizada por mestres respeitados na comunidade. Cada detalhe é cuidado para que, no domingo festivo, tudo esteja pronto.

O grande dia que, neste ano, ocorre em 8 de março, começa ao amanhecer, com fogos e com a tradicional passagem da banda Lira de Ouro pelas ruas da cidade. Em caminhão aberto, os músicos despertam moradores, que abrem portas e janelas para acompanhar o cortejo sonoro. É o anúncio de que a festa chegou.

Após a missa, o cortejo segue até o porto. O Estandarte do Divino Espírito Santo e a imagem de Nossa Senhora da Penha conduzem os fiéis até as embarcações. Então, perfilados, os barcos partem pela orla em procissão marítima, colorindo o mar e reafirmando a devoção da comunidade pesqueira. É o momento mais aguardado da festa, quando fé, tradição e paisagem se fundem num mesmo cenário.

Além da programação religiosa, a Festa das Canoas sempre incorporou manifestações culturais diversas. O jongo, dança de raízes africanas, já marcou presença nas noites festivas. O cronista Rubem Braga registrou essa expressão cultural na crônica “O jongo entre os maratimbas”, descrevendo a intensidade e a dramaticidade da dança durante os festejos.

A organização da festa, por muitos anos, foi essencialmente comunitária. Comissões eram formadas para arrecadar donativos, promover leilões e garantir a realização do evento. A participação do poder público era discreta, cabendo à própria comunidade sustentar financeiramente e estruturar a celebração. O chamado “livro de ouro” registrava as contribuições, e os leilões reuniam famílias em animadas disputas.

Ao longo do tempo, a festa passou por momentos de enfraquecimento, influenciada por fatores políticos e econômicos. Ainda assim, nunca deixou de ser realizada. A fé do povo maratimba manteve acesa a tradição, mesmo diante das dificuldades.

Hoje, a Festa das Canoas segue como um dos maiores símbolos da identidade de Marataízes. Mais do que uma programação anual, trata-se de uma herança coletiva transmitida de pais para filhos. A procissão marítima continua a renovar promessas e esperanças, enquanto o som dos fogos e das bandas reafirma o pertencimento de uma comunidade que encontra, no mar e na fé, a razão de sua história.

Assim, a cada março, Marataízes revive sua própria essência: uma procissão de fé sobre as águas, sustentada pela memória dos antepassados e pela perseverança de um povo que nunca deixou de acreditar.

 

 

Serviço

116ª Festa das Canoas – Marataízes

Entre os dias 05 e 08 de março de 2026, acontece na Orla de Marataízes a 116ª Festa das Canoas, um dos eventos mais tradicionais do município.

A programação inclui missas solenes e procissão marítima, reunindo fiéis e embarcações em homenagem religiosa. Também estão previstas feira de artesanato, gastronomia típica e shows musicais.

Local: Orla de Marataízes
Data: 05 a 08 de março de 2026
Evento: 116ª Festa das Canoas

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Autor:

Diocese Cachoeiro

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