A abstinência de carne na Sexta-feira Santa é uma prática antiga da Igreja Católica, marcada por profundo significado espiritual e penitencial. Mais do que uma simples regra alimentar, o costume está ligado à memória da Paixão de Cristo e ao convite à conversão dos fiéis.
O Código de Direito Canônico estabelece que, ao longo do ano, há dois dias de jejum obrigatório para os católicos: a Quarta-feira de Cinzas e a Sexta-feira Santa. Nessas datas, além da redução na quantidade de alimentos, também é orientada a abstinência de carne.
Segundo o doutor em Teologia, padre Juliano Ribeiro Almeida, essa prática vai além de uma simples tradição. “Esses dois dias concentram um chamado mais forte à penitência. Por isso, a Igreja une o jejum à abstinência, como forma de ajudar o fiel a viver melhor esse espírito”, explica.
Um ponto que ainda gera dúvidas entre muitos fiéis é o tipo de alimento que deve ser evitado. De acordo com o sacerdote, a orientação não se restringe à carne vermelha. “Quando a Igreja fala em carne, ela se refere aos animais de sangue quente. Por isso, entram nessa orientação não só a carne bovina, mas também frango, porco e outros”, esclarece.
A escolha por evitar esse tipo de alimento também tem um sentido prático, que reforça o aspecto espiritual da penitência. Isso porque essas carnes proporcionam maior saciedade, mantendo o organismo alimentado por mais tempo.
“São alimentos que sustentam mais e prolongam a sensação de saciedade. Ao abrir mão deles, a pessoa experimenta mais facilmente a fome ao longo do dia, o que a ajuda a lembrar do sentido do jejum e a se colocar em atitude de oração”, destaca padre Juliano.
Por outro lado, a Igreja permite o consumo de peixes, considerados alimentos mais leves. Ainda assim, o objetivo não é provocar sofrimento físico. “A proposta não é enfraquecer o corpo, mas educar os sentidos. O fiel continua se alimentando, mas de forma mais simples, mantendo o foco no significado espiritual daquele dia”, completa.
Além da Sexta-feira Santa, todas as sextas-feiras do ano são tradicionalmente consideradas dias de penitência. A orientação da Igreja é que os fiéis realizem algum gesto concreto, sendo a abstinência de carne a forma mais comum, embora não a única.
“Mesmo fora do tempo da Quaresma, a sexta-feira conserva esse caráter penitencial. A abstinência pode ser vivida ou substituída por outra prática, desde que haja um verdadeiro espírito de conversão”, ressalta o padre.
A origem desse costume remonta aos primeiros séculos do cristianismo, quando os fiéis passaram a associar cada dia da semana a um momento da história da salvação. Nesse contexto, a sexta-feira ganhou um significado especial por ser o dia da morte de Jesus Cristo.
Assim, ainda que a celebração litúrgica da Paixão aconteça de forma mais intensa durante o Tríduo Pascal, a prática da penitência às sextas-feiras permanece como um convite contínuo à memória, à gratidão e à conversão.