Assembleia Regional reúne pescadores e marisqueiras em Piúma para debater desafios das comunidades tradicionais

Começou nesta sexta-feira, 20 de março, em Piúma, no litoral sul do Espírito Santo, a Assembleia Regional do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. O encontro, realizado no MEPES (Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo), reúne pescadores, marisqueiras, agentes pastorais e lideranças comunitárias e segue durante todo o fim de semana com debates voltados à realidade das comunidades tradicionais, aos desafios enfrentados pela pesca artesanal e à defesa dos territórios e das águas.

Participam da assembleia cerca de 40 representantes dos dois estados, sendo aproximadamente 20 pescadores e agentes de Minas Gerais e outros 20 do Espírito Santo. Segundo a secretária executiva do CPP Regional Minas/ES, Irmã Letícia Aparecida Rocha, o encontro é um momento de avaliação da caminhada pastoral e também de reflexão coletiva sobre as lutas vividas pelas comunidades pesqueiras.

“Estamos na Assembleia Regional de Minas e Espírito Santo, com pescadores, pescadoras e agentes pastorais dos dois estados. Esse encontro é um momento de avaliação do nosso serviço pastoral e também de partilha das lutas e desafios que as comunidades enfrentam”, afirmou.

De acordo com ela, a proposta da assembleia é fortalecer a organização das comunidades e promover espaços de diálogo que permitam construir caminhos coletivos para enfrentar os problemas vividos pelas populações tradicionais.

“A partir da sinodalidade, buscamos discutir juntos os problemas e construir soluções coletivas, sempre à luz do Evangelho e da Palavra de Deus”, destacou.

Ainda segundo a secretária executiva, a assembleia também procura apontar novos caminhos para a construção de uma sociedade mais justa e solidária.

“Queremos avançar em processos de libertação e na construção de uma nova forma de viver neste mundo, com mais dignidade e melhores condições de vida para as comunidades que dependem da pesca artesanal”, explicou.

A programação desta sexta-feira começou com uma análise de conjuntura, momento em que os participantes refletiram sobre a realidade social, econômica e ambiental que afeta diretamente os territórios pesqueiros. Também foram debatidos temas ligados à Campanha da Fraternidade de 2026, que terá como tema “Fraternidade e Moradia”.

Segundo Irmã Letícia, o tema dialoga diretamente com a necessidade de cuidar do planeta e garantir condições dignas de vida para todos.

“O cuidado com a Casa Comum continua sendo uma urgência. Quando falamos de moradia, também estamos falando do nosso planeta, que é a grande casa de todos nós. Não temos outro lugar para viver, então precisamos cuidar dele com responsabilidade”, afirmou.

A programação continua neste sábado, 21, quando os participantes devem aprofundar os debates sobre os impactos provocados por grandes empreendimentos e projetos econômicos nos territórios das comunidades tradicionais. Entre os temas que serão discutidos estão a mineração, a poluição das águas e a falta de regularização dos territórios pesqueiros.

“Vamos discutir também como os grandes projetos têm violado os direitos da Mãe Terra e das comunidades tradicionais. São situações que afetam diretamente as águas dos rios e dos mares e comprometem a vida das populações que dependem desses territórios”, explicou.

Durante a assembleia, pescadores também compartilharam experiências e relataram dificuldades enfrentadas em suas comunidades. Um dos depoimentos foi do pescador Euclides dos Santos Guilherme, de 50 anos, morador da comunidade Porto Grande, no município de Conceição da Barra, no norte do Espírito Santo. Ele trabalha com pesca há 30 anos e relatou os impactos do desastre ambiental provocado pelo rompimento da barragem da Samarco, em 2015.

“Aqui na assembleia estamos debatendo o desastre que atingiu nossa região. A lama da Samarco acabou com a pescaria e com a nossa fonte de renda”, afirmou.

Segundo ele, muitas famílias que dependiam da pesca foram diretamente afetadas e ainda enfrentam dificuldades para reconstruir suas vidas.

“Muitos pescadores perderam suas condições de trabalho e suas fontes de sustento. O que buscamos nesses encontros é chamar a atenção das autoridades para a realidade das nossas comunidades”, disse.

O pescador também destacou a importância de espaços como a assembleia para que os trabalhadores do mar possam expressar suas dificuldades e reivindicar direitos.

“Esses encontros nos ajudam a mostrar o que estamos vivendo e a levar nossa voz para que as autoridades olhem para os pescadores e para os problemas que estão acontecendo nos rios e no mar”, afirmou.

Euclides também fez um apelo para que o poder público reconheça a importância da pesca artesanal e valorize os trabalhadores do setor.

“Queremos que governadores, deputados e outras autoridades olhem com respeito para a nossa profissão e para a realidade das comunidades pesqueiras”, declarou.

O bispo da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, Dom Luiz Fernando Lisboa, CP, também participou da assembleia e destacou a importância do encontro para fortalecer a organização das comunidades pesqueiras.

Segundo ele, é motivo de alegria para a diocese receber o evento que reúne pescadores e marisqueiras de diferentes regiões.

“É uma grande alegria acolher aqui (na diocese) essa assembleia que reúne pescadores e marisqueiras dos dois Estados. São pessoas com uma experiência de vida muito profunda ligada à pesca”, afirmou.

Durante o encontro, o bispo relatou conversas com participantes que vivem da pesca há décadas e que aprenderam o ofício dentro da própria família.

“Conversei com uma pescadora que aprendeu a profissão com o pai e continua exercendo até hoje. Para muitas dessas pessoas, a pesca não é apenas um trabalho, é a própria vida delas”, destacou.

Dom Luiz Fernando também chamou atenção para os impactos provocados por desastres ambientais e grandes empreendimentos sobre as comunidades tradicionais. Segundo ele, tragédias como rompimentos de barragens afetam diretamente a vida das populações que dependem dos rios e do mar.

“Além das vidas que foram perdidas nesses desastres, muitas comunidades que vivem da pesca acabam sendo profundamente prejudicadas. Os rejeitos liberados nos rios comprometem não só a pesca, mas também outras atividades tradicionais”, explicou.

Ele também mencionou preocupações relacionadas a projetos que podem impactar comunidades pesqueiras no litoral sul do Espírito Santo, como a possibilidade de construção de um porto central na região.

“Existe uma preocupação grande com a possibilidade da construção de um porto central que pode afetar centenas de famílias de pescadores e marisqueiras”, afirmou.

Para o bispo, é fundamental que os direitos dessas comunidades sejam respeitados e considerados em qualquer processo de desenvolvimento.

“Essas famílias vivem da pesca há décadas. Quando grandes empreendimentos chegam sem considerar essa realidade, acabam prejudicando não apenas indivíduos, mas comunidades inteiras”, ressaltou.

Ao final, Dom Luiz Fernando destacou a importância da assembleia como espaço de fortalecimento da organização das comunidades pesqueiras e desejou que o encontro contribua para ampliar a mobilização em defesa da vida e dos territórios.

“Que essa assembleia seja um momento de fortalecimento da luta dos pescadores, pescadoras e marisqueiras e que possamos avançar cada vez mais na defesa da dignidade dessas comunidades”, concluiu.

A assembleia segue neste sábado, 21, e domingo, 22, com rodas de conversa, momentos de formação, partilha de experiências e encaminhamentos voltados ao fortalecimento da organização das comunidades pesqueiras e à defesa das águas, dos territórios tradicionais e da pesca artesanal.

 

Fotos

Fotos: Pascom Paroquial da Paróquia Nossa Senhora da Imaculada Conceição, em Piúma

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Autor:

Diocese Cachoeiro

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