Durante o período da Quaresma, a Igreja no Brasil promove uma das maiores mobilizações sociais do país: a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realiza, anualmente, a Campanha da Fraternidade. Em 2026, o tema escolhido — “Fraternidade e Moradia” — lança luz sobre uma das questões mais urgentes da sociedade brasileira: o direito a um teto digno.
Com o lema “Ele veio morar entre nós”, a campanha propõe uma reflexão que ultrapassa os limites de uma discussão meramente econômica ou habitacional. A moradia é apresentada como um direito fundamental e, ao mesmo tempo, como uma realidade profundamente ligada à fé cristã. A imagem central da campanha reforça essa mensagem ao retratar, de forma impactante, a dura realidade de quem vive sem casa, convidando à empatia e ao compromisso.
Criada em 1962, no Rio Grande do Norte, e nacionalizada dois anos depois pela CNBB, a Campanha da Fraternidade tem como objetivo promover reflexão e transformação social. Ao longo de mais de seis décadas, abordou temas como saúde, educação, meio ambiente e violência, sempre articulando fé e realidade social. Em 2026, a proposta vai além da solidariedade pontual e convida a uma conversão pessoal, comunitária e estrutural, questionando as bases de um sistema que naturaliza a exclusão habitacional.
A metodologia da campanha segue três passos tradicionais: ver, iluminar e agir. No primeiro momento, “ver” significa encarar a realidade sem superficialidade. A crise de moradia no Brasil não é apresentada apenas como consequência de dificuldades financeiras individuais, mas como resultado de estruturas injustas. O texto-base aponta para o chamado “pecado social”: leis que favorecem a especulação imobiliária, desigualdades históricas e a indiferença coletiva diante de pessoas vivendo nas ruas.
Na etapa do “iluminar”, a campanha recorre à tradição bíblica e à Doutrina Social da Igreja. O lema remete ao Evangelho de João, ao afirmar que Deus escolheu “armar sua tenda” entre a humanidade. Assim, morar deixa de ser apenas uma necessidade material e assume dimensão sagrada. A denúncia contra a acumulação excessiva de bens ecoa a voz dos profetas. O Livro de Isaías já alertava: “Ai dos que ajuntam casa a casa, campo a campo, até que não haja mais lugar”. Séculos depois, os Padres da Igreja aprofundaram o princípio do destino universal dos bens, segundo o qual a propriedade privada deve cumprir função social. Entre eles, destaca-se São João Crisóstomo, que associava diretamente a fé celebrada nos templos ao compromisso concreto com os mais pobres, defendendo que honrar a Deus implica cuidar dos necessitados.
Por fim, o “agir” propõe iniciativas concretas: fortalecer a reflexão nas comunidades, apoiar movimentos sociais, desenvolver ações de solidariedade e incentivar a incidência política para a formulação de políticas públicas eficazes na área habitacional.
Ao afirmar que “a pergunta por um teto nasce da fraternidade”, o texto-base sintetiza o espírito da campanha. A luta por moradia não se resume a tijolos e cimento, mas parte do reconhecimento de que todos pertencem à mesma família humana. Embora a Campanha da Fraternidade se concentre no tempo quaresmal, seu chamado ultrapassa o calendário litúrgico e propõe que a reflexão se transforme em compromisso permanente, impulsionando a construção de uma sociedade em que o direito à moradia seja realidade para todos.