Capacitação sobre violência doméstica marca primeira reunião dos presbíteros em 2026

A Diocese de Cachoeiro de Itapemirim realizou, nesta quarta-feira, 11 de fevereiro, a primeira Reunião Ordinária do ano de 2026 com os presbíteros diocesanos. O encontro aconteceu na Casa de Retiros Mãe da Igreja, em Jerônimo Monteiro, no Caparaó Capixaba, e reuniu o bispo diocesano, Dom Luiz Fernando Lisboa, CP, padres diocesanos e religiosos que atuam nas diversas paróquias da Igreja Particular.

Marcando o início das atividades pastorais do presbitério neste ano, a reunião teve como eixo central a capacitação sobre o tema “Conhecer a Violência Doméstica e a Rede de Atendimento à Vítima”, conduzida pelo promotor de Justiça Lucas Lobato La Rocca. Especialista em Direito Público, ele atua na 2ª Promotoria Criminal de Cachoeiro de Itapemirim (Tribunal do Júri) e é coordenador do Subnúcleo III do NEVID (Núcleo Especializado de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar).

A iniciativa está diretamente ligada à carta divulgada por Dom Luiz no final de 2025, por ocasião do Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, celebrado em 25 de novembro. Iniciada a partir do versículo bíblico “Livrai o oprimido das mãos do opressor” (Jr 22,3), a mensagem foi dirigida especialmente aos homens e nasceu da escuta pastoral das dores presentes nas comunidades.

“Essa iniciativa vem por causa da prática de atendimento. Todo padre que ouve as pessoas sabe o drama que muitas mulheres passam nas nossas famílias e comunidades”, explicou o bispo. Segundo ele, a carta foi direcionada aos homens porque é necessário reconhecer a responsabilidade masculina na transformação dessa realidade. “Fomos criados com muito machismo. Se percebermos os termos que usamos e as atitudes que temos, elas são carregadas de preconceito. Isso quase está no nosso DNA, porque fomos criados assim. Mas precisamos lutar contra isso.”

Dom Luiz reforçou que a violência contra a mulher não é um problema distante da vida eclesial. “As mesmas vítimas de violência e de feminicídio estão dentro das nossas comunidades. São pessoas conhecidas, próximas. A Igreja não pode ficar fora disso.”

A partir da carta, o bispo propôs ações concretas para toda a Diocese: criação de grupos comunitários e paroquiais de enfrentamento à violência; produção de materiais formativos voltados especialmente aos homens; implementação do mês de proteção da mulher em todo o território diocesano; formação específica para agentes de pastoral acolherem vítimas; promoção de encontros anuais sobre masculinidade e temas correlatos; além da integração das paróquias às redes municipais e estaduais de proteção.

“Estamos vivendo um tempo de sinodalidade, que significa também escutar a sociedade e os seus clamores. Precisamos fortalecer a Pastoral Familiar, a Pastoral da Escuta e retomar a Pastoral da Mulher, que já foi muito forte no Brasil e é necessária”, acrescentou.
Ao mencionar a carta durante o encontro, o bispo solicitou que ela seja amplamente conhecida e estudada nas comunidades. A íntegra do documento está disponível no site oficial da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim. (Clique aqui).

Durante a formação, o promotor Lucas Lobato explicou que o objetivo foi oferecer aos presbíteros instrumentos concretos para atuar diante de situações de violência doméstica.

“Essa capacitação veio como uma forma de somar à carta do Dom Luiz. Com essa preocupação em âmbito diocesano, nós tentamos apresentar aos presbíteros os tipos de violência, para que eles possam reconhecer naquela mulher que às vezes os procura quais são esses sinais”, afirmou.

A formação foi organizada em três etapas. No primeiro momento, foram apresentados os diferentes tipos de violência — física, psicológica, moral, sexual e patrimonial — e seus impactos. A proposta foi ajudar os padres a identificarem sinais muitas vezes silenciosos.

No segundo momento, o foco foi a abordagem adequada da vítima. “A forma de abordar essa mulher deve ser sempre tangenciando, nunca de forma direta, respeitando a individualidade dela e evitando a revitimização”, destacou o promotor. Segundo ele, a escuta qualificada e respeitosa é fundamental para que a mulher se sinta segura.

Por fim, a terceira etapa tratou dos encaminhamentos. “Apresentado o relato da violência, quais encaminhamentos podem ser feitos? Quais serviços estão disponíveis, onde procurar, o que cada serviço faz. Trabalhamos desde o princípio até o momento em que essa mulher possa receber os cuidados necessários para o rompimento da situação de violência”, explicou.

Entre os serviços citados estão o Ministério Público, CREAS, Casa Margarida e demais equipamentos que compõem a rede de atendimento à mulher.

Para o promotor, o envolvimento dos líderes religiosos é estratégico no enfrentamento à violência doméstica.

“Os padres gozam, na maioria das comunidades, de grande confiança, tanto das mulheres quanto dos próprios homens. Ele já é uma pessoa com formação e autoridade. Dentro da sua atuação cristã, pode trabalhar essa realidade na família e fazer os encaminhamentos para que o ciclo de violência acabe”, ressaltou.

Segundo ele, o padre é uma voz respeitável que pode encorajar mulheres a romper o silêncio. “Ele pode ajudar a mulher a apresentar a situação, para que também, do lado dos poderes públicos e da rede de atendimento, ela receba acolhimento.”

O representante dos presbíteros na Diocese de Cachoeiro, Pe. Josimar Azevedo Pirovani, avaliou que o encontro foi decisivo para qualificar a atuação pastoral nas paróquias.

“O objetivo é que o presbítero, lá na paróquia, no bairro, na cidade, onde ele é liderança, saiba como agir”, afirmou.

Ele destacou que muitas mulheres procuram os padres, ainda que de forma indireta. “Em alguns casos, não tão diretamente, mas elas nos procuram. E não basta apenas dizer: ‘Vai para casa e reza’. Jamais. Às vezes é preciso ajudar aquela mulher a fazer um caminho, procurar especialistas, uma rede de apoio que vai ajudá-la a enfrentar aquela situação.”

Pe. Josimar ressaltou a importância de legitimar a dor da vítima. “O presbítero precisa validar a dor daquela mulher, compreender e fazer os devidos encaminhamentos. A oração é fundamental, mas há toda uma rede em volta que precisa ser acionada.”

Ele também mencionou que os materiais apresentados poderão ser compartilhados nas paróquias e com lideranças leigas. “Existe uma falta de clareza sobre o próprio feminicídio. Por isso, os presbíteros tiveram contato com esse tema para compreender melhor e também ajudar nossas lideranças a perceberem situações que talvez estejam acontecendo nas comunidades. Acredito que isso sensibilizou bastante o presbitério.”

A primeira reunião ordinária de 2026, além de tratar de pautas administrativas e pastorais, evidenciou o compromisso da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim com a promoção da dignidade humana e o enfrentamento das diversas formas de violência.

Ao integrar formação espiritual, responsabilidade social e articulação com os órgãos públicos, a Diocese reforça a compreensão de que evangelizar também significa defender a vida, proteger os mais vulneráveis e colaborar para a construção de uma cultura de respeito e justiça.

 

Fotos

Fotos: Pe. José Carlos Ferreira da Silva

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Autor:

Diocese Cachoeiro

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