Com igreja lotada e procissão marítima, 116ª Festa das Canoas reúne fiéis em Marataízes

Antes mesmo do sol nascer, a cidade já sabia que era dia de festa. O silêncio da madrugada foi rompido pelo estampido dos fogos e pelo som da tradicional banda Lira de Ouro, que percorreu as ruas em caminhão aberto. A música ecoou pelos bairros e despertou moradores que abriram portas e janelas para acompanhar o cortejo. Era o sinal de que a 116ª Festa das Canoas havia começado.

A tradição, que atravessa gerações, teve um de seus momentos mais marcantes no último domingo, 8 de março, segundo domingo do mês — data que, há décadas, reúne fé, história e identidade do povo de Marataízes.

Logo nas primeiras horas da manhã, a Igreja Matriz Nossa Senhora da Penha, na Praia Central, ficou completamente lotada. Muitos fiéis acompanharam a celebração do lado de fora, ocupando calçadas e buscando sombra ao redor da igreja para não perder nenhum momento da missa.

Foi assim que a aposentada Maria da Penha Soares participou da celebração. Com uma cadeira de praia nas mãos, ela se acomodou debaixo de uma árvore e acompanhou tudo atentamente.

“Eu participo todos os anos. A gente vem cedo, traz cadeira, fica na sombra, mas o importante mesmo é estar aqui. Essa festa é muito especial para nós, faz parte da nossa vida”, contou.

Entre os presentes também estava o pescador José Carlos Ferreira, que participa da festa desde a infância e destaca a importância da tradição para quem vive do mar.

“Para nós, pescadores, essa festa tem um significado muito grande. A gente pede proteção, agradece pelas pescarias e pela vida. O mar é nossa fonte de sustento, e a fé nos acompanha em cada saída para pescar”, disse.

Durante a celebração, a comunidade acolheu símbolos que carregam mais de um século de história. O mastro do Divino Espírito Santo, erguido solenemente, representa o anúncio público da festa e a presença do Espírito Santo no meio do povo. Já o som do tambor — conhecido popularmente como bumbo — continua cumprindo a missão de avisar à comunidade sobre a chegada da Bandeira do Divino.

Hoje, quem assume essa responsabilidade é Sérgio Souza Moreira Júnior, que herdou a função do pai e mantém viva a tradição.

“Desde quando a paróquia retomou essa tradição, meu pai era quem fazia essa marcação com o tambor. Ele nos deixou em 2013 e, a partir daí, eu assumi esse compromisso de continuar anunciando a chegada da Bandeira do Divino. É uma emoção muito grande e os paroquianos sempre dão um apoio enorme”, relatou.

A missa foi presidida pelo pároco local, padre Gracione Augusto Alves, que participa da Festa das Canoas pela primeira vez. Em sua homilia, ele destacou a força da fé presente na comunidade e a beleza da tradição.

“É uma alegria muito grande participar pela primeira vez dessa festa que já ultrapassa um século de história. Tenho percebido o quanto o povo tem uma fé profunda e uma devoção muito viva. Isso toca o coração da gente. Sou muito grato a Deus por poder viver esse momento com a comunidade”, afirmou o sacerdote.

Antes da bênção final, os fiéis receberam fitas e levaram objetos pessoais para serem abençoados com água benta — um gesto simples, mas carregado de significado, que muitos levam para casa como sinal de proteção e fé.

Para a comerciante Ana Paula Nascimento, que levou a família para participar da celebração, o momento é também uma oportunidade de transmitir a tradição para as novas gerações.

“Eu venho desde pequena com meus pais e agora faço questão de trazer meus filhos. É uma tradição muito bonita da nossa cidade e é importante que eles cresçam vivendo essa fé e esse amor por Nossa Senhora”, afirmou.

Após a missa, a celebração seguiu em cortejo até a praia. O estandarte do Divino Espírito Santo e a imagem de Nossa Senhora da Penha conduziram os fiéis até as embarcações, enquanto uma banda marcial animava o percurso.

Em seguida, teve início um dos momentos mais aguardados da festa: a procissão marítima. Barcos enfeitados navegaram pela orla, colorindo o mar e reafirmando a devoção da comunidade, especialmente dos pescadores que encontram na fé força para o dia a dia.

Para o colaborador pastoral, diácono Taylor Menine, a celebração representa um momento de renovação espiritual para toda a comunidade.

“Hoje é um dia muito especial para o povo que carrega no coração essa tradição e essa devoção. Assim como no Evangelho encontramos a água viva que nos dá vida nova, também buscamos no Senhor a força para renovar nossa caminhada, agradecer pelas graças recebidas e pedir proteção para nossa população e para os pescadores”, destacou.

Neste ano, a Festa das Canoas ganhou ainda mais dimensão e já é considerada a maior edição desde a emancipação do município. A programação foi encerrada à noite, com a missa das 19 horas e o show da banda católica Fé Maior, reunindo novamente a comunidade em um clima de oração e celebração.

Mais do que uma festa, a celebração reafirma a fé de um povo que, há 116 anos, transforma o mar, a cidade e a tradição em um grande testemunho de devoção.

Fotos

 

 

 

Fotos: Glaice Campos

 

Compartilhar Post:

Autor:

Diocese Cachoeiro

Últimas notícias