Dia Internacional da Mulher: duas trajetórias de serviço e transformação no sul capixaba

Na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Espírito Santo, histórias de mulheres continuam sendo construídas com coragem, fé e compromisso com a transformação social. No mês em que o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, trajetórias de diferentes gerações mostram como a educação, a cultura e a solidariedade podem se tornar instrumentos de esperança e mudança nas comunidades.

É nesse contexto que se encontram as histórias de Dandara Dias de Oliveira e Mariana de Fátima Silva de Souza. Separadas por mais de quatro décadas de idade, mas unidas pelo mesmo espírito de serviço, elas representam duas gerações de mulheres que fizeram da educação e do compromisso social um caminho de transformação.

Da roça à literatura: a voz de uma nova geração

Filha de lavradores e nascida na comunidade rural Pedra do Itabira, em Cachoeiro de Itapemirim, Dandara Dias de Oliveira cresceu em meio à simplicidade do campo e à força das mulheres de sua família. O próprio nome carrega um símbolo de resistência: Dandara nasceu em 1994, ano em que se lembravam os 300 anos da morte de Dandara dos Palmares, figura histórica ligada à luta do povo negro no Brasil.

A escolha do nome foi resultado da sensibilidade de uma tia, que sugeriu à família que a menina recebesse o nome de uma rainha africana. No momento do registro, a escrivã chegou a sugerir que escolhessem “um nome mais bonito”, mas a avó da futura professora manteve a decisão. Assim, antes mesmo de nascer, Dandara já carregava um símbolo de identidade e resistência.

A infância foi marcada pelo trabalho e pela convivência com os pais nas atividades do campo. Nos finais de semana, enquanto a mãe cozinhava e o pai realizava diferentes serviços para complementar a renda da família, ela e o irmão permaneciam por perto.

“Enquanto eles trabalhavam, eu dormia debaixo da mesa da cozinha. Talvez por isso hoje eu tenha facilidade de dormir em qualquer lugar”, recorda.

Mesmo diante das dificuldades financeiras, a educação sempre foi valorizada dentro de casa. Esse incentivo levou a jovem do interior a alcançar um feito inédito em sua família: ingressar no ensino superior.

Dandara formou-se em História pelo Centro Universitário São Camilo, também concluiu graduação em Geografia pelo Centro Universitário Faveni, fez pós-graduação em Ensino Religioso e atualmente cursa Letras Português-Inglês.

“Aquela menina do interior, de escola pública e sem tradição acadêmica na família, precisou aprender tudo do zero. Houve momentos em que pensei em desistir”, lembra.

A educação pública tornou-se o principal campo de atuação. Como professora, desenvolve projetos voltados à valorização da identidade, da memória e da autoestima dos estudantes, especialmente daqueles historicamente invisibilizados.

“A violência contra a mulher negra começa muito antes da agressão física. Começa quando nossas meninas não se veem representadas”, afirma.

A escrita também se tornou uma ferramenta importante em sua trajetória. Aos 28 anos, passou a transformar memórias familiares e experiências de vida em textos que dialogam com a realidade das comunidades rurais e da população negra.

Sob o pseudônimo Rebeca Dioliver, inspirado em lembranças da infância e na junção de seus sobrenomes, começou a publicar textos e participar de projetos literários.

Um dos marcos dessa caminhada foi o conto A Boneca Rebeca, inspirado na memória de um brinquedo da infância que se transforma em símbolo de identidade e pertencimento.

O trabalho literário também impulsionou iniciativas coletivas. Hoje, Dandara integra o grupo responsável pela coluna “Escritoras Cachoeirenses”, publicada semanalmente em um jornal local, dedicada à valorização da produção literária feminina da cidade.

A escritora também passou a integrar a Academia Cachoeirense de Letras, experiência que considera profundamente simbólica.

“Para mim, que nasci na zona rural e cresci ouvindo histórias da oralidade, ocupar esse espaço representa muito mais do que um título. É o reconhecimento de que aquela menina que sonhava em escrever também tinha lugar na literatura.”

Além da educação e da literatura, Dandara atua como produtora cultural. Em julho de 2025, inaugurou o Centro Cultural Dandara, na comunidade Pedra do Itabira, espaço dedicado à promoção da arte, da memória, do letramento racial e da educação socioambiental.

O espaço abriga ainda o Museu Comunitário Caboclo Josias, dedicado à memória de seu avô, e a Biblioteca Comunitária Lydia Rosa, homenagem à tia que incentivou sua formação como leitora.

A fé católica também orienta sua atuação social. Dandara é ministra da Palavra na Comunidade Eclesial de Base Nossa Senhora da Penha, coordena a Pastoral Afro-Brasileira na Diocese de Cachoeiro de Itapemirim e compõe a Comissão de Justiça e Paz (CJP).

“Para mim, fé e justiça social caminham juntas. A fé que acredito não se cala diante das injustiças”, afirma.

Educação e serviço: a missão que atravessa gerações

Se a trajetória de Dandara representa a força de uma nova geração de educadoras e agentes culturais, a história de Mariana de Fátima Silva de Souza, de 68 anos, revela como o compromisso com a educação e com o próximo pode atravessar toda uma vida.

Nascida em Mimoso do Sul e atualmente moradora de Muqui, Mariana cresceu em uma família simples e enfrentou muitas dificuldades durante a infância.

“Foi uma infância muito difícil, porque a gente era de uma classe mais pobre e as dificuldades eram muitas. Mas eu sempre fui muito determinada. A classe social nunca me impediu de buscar aquilo que eu queria”, conta.

Aos 19 anos, casou-se com Atervaldo Francisco de Souza, hoje com 75 anos. Segundo ela, o marido sempre foi um grande incentivador para que continuasse estudando mesmo após o casamento.

Determinada, Mariana cursou simultaneamente o Magistério e o Científico, estudando à noite e realizando estágio à tarde. Pouco tempo depois, já grávida, ingressou na faculdade em Cachoeiro de Itapemirim, onde cursou Ciências e, posteriormente, complementou a formação em Biologia e Matemática.

Logo após concluir o Magistério, recebeu um convite que marcou o início de sua carreira: lecionar no próprio curso de formação de professores onde havia estudado.

“Dar aula no Magistério, exatamente de onde eu vim, foi uma gratificação muito grande. Aquilo me deu muita confiança”, recorda.

A partir daí, construiu uma trajetória de 34 anos na educação pública. Ao longo desse período, atuou como professora, coordenadora pedagógica, diretora escolar, secretária municipal de Educação e também colaborou com a Superintendência Regional de Educação.

Paralelamente à carreira na educação, Mariana também construiu uma família. Ao lado do marido, teve três filhos e hoje celebra a alegria de ser avó de sete netos.

Depois de mais de três décadas dedicadas ao ensino, aposentou-se há cerca de oito anos. Mas o afastamento da sala de aula não significou o fim de sua missão.

“No mesmo mês em que me aposentei, eu disse que queria fazer um serviço social”, lembra.

Foi assim que passou a integrar a diretoria do Lar Frei Pedro, instituição em Muqui dedicada ao acolhimento de idosos que muitas vezes não têm família ou vivem em situação de abandono.

Inicialmente atuando como tesoureira, Mariana hoje participa da administração e acompanha de perto o funcionamento da instituição, que acolhe 38 idosos e mantém uma equipe de 32 funcionários.

“Ali é a minha melhor história. É onde eu coloco todo o meu amor, todo o meu cuidado e todo o meu tempo”, afirma.

Todo o trabalho que realiza no lar é voluntário.

“Eu não recebo nada. Se preciso viajar a serviço da instituição, uso meu próprio carro e pago meu combustível. Eu procuro não usar nada do lar”, explica.

Para ela, essa dedicação é também uma forma de gratidão.

“Isso é um agradecimento a Deus por tantas bênçãos que Ele concedeu na minha vida e na minha família.”

Duas histórias, um mesmo propósito

Embora pertençam a gerações diferentes, as histórias de Dandara e Mariana revelam um ponto em comum: o compromisso com a educação, a fé e o cuidado com a comunidade.

Enquanto uma atua na valorização da memória, da cultura e da identidade por meio da palavra e da arte, a outra continua dedicando sua experiência e seu tempo ao serviço silencioso de cuidar dos mais vulneráveis.

Neste mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, trajetórias como essas lembram que a força das mulheres se manifesta de muitas formas — na sala de aula, na literatura, no trabalho social e nas pequenas escolhas diárias que transformam a sociedade.

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Autor:

Diocese Cachoeiro

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