Dom Luiz Fernando Lisboa rejeita ataque dos EUA à Venezuela e alerta para avanço do imperialismo na América Latina


O bispo diocesano de Cachoeiro de Itapemirim, Dom Luiz Fernando Lisboa, CP, manifestou rejeição “absoluta” ao ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, classificando a ação como um “absurdo” e uma grave ameaça à soberania dos povos. Em declarações à Agência ECCLESIA, o bispo demonstrou ainda forte preocupação com o avanço de uma política imperialista e com possíveis desdobramentos para outros países da América Latina.

Dom Luiz, que é bispo referencial da Pastoral dos Brasileiros no Exterior (PBE), ligada à Comissão Episcopal para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), está em missão em Lisboa, Portugal. Segundo ele, a intervenção norte-americana ocorrida no último sábado, que resultou na captura do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e da primeira-dama, Cilia Flores, foi recebida com “muita tristeza” e “muito espanto”.

“Quando as pessoas acham que são donas do mundo, que podem tudo, acontece isso. [Donald] Trump tem a mentalidade de que a América do Sul é quintal dos Estados Unidos. Ele quer ressuscitar uma teoria antiga, mas nós rejeitamos absolutamente isso”, declarou o bispo.

De acordo com Dom Luiz Lisboa, ainda que se possa questionar o regime político da Venezuela, nada justifica uma invasão militar. Para ele, os interesses dos Estados Unidos estão claramente ligados às riquezas naturais do país sul-americano.
“O regime pode não ser o mais adequado, os líderes podem falhar o quanto for, mas nada justifica uma invasão. Os EUA querem o petróleo da Venezuela”, afirmou.

O bispo reforçou o princípio da autodeterminação dos povos e condenou qualquer tentativa de imposição externa.
“Cada povo é soberano e deve se autodeterminar. Não cabe a outro país invadir e querer comandar o outro”, destacou.

Ao comentar as declarações e ameaças do presidente norte-americano em relação a outros territórios, Dom Luiz mostrou-se apreensivo quanto ao futuro.
“Alguns dizem que o [Donald] Trump é louco. Eu não concordo. Ele é mau, é malévolo. É uma política de dominação, uma política imperialista, de acharem que eles podem tudo. Já falou da Groenlândia, já falou do Canal do Panamá. Ele está cumprindo aquilo que todo mundo achava que era uma grande asneira”, disse.

O bispo ressaltou que a situação também gera preocupação no Brasil, país rico em recursos naturais estratégicos.
“O Brasil tem a Amazônia, minérios, terras raras que interessam ao presidente dos EUA. Ele já falou sobre isso. Então, preocupa-nos, porque tanto o Brasil quanto a Colômbia e o Chile são lugares ricos em recursos. Ele começou na Venezuela. Não é impossível que queira expandir essa maluquice para outros lugares”, alertou.

Apesar do cenário preocupante, Dom Luiz destacou a resistência que Donald Trump já enfrenta dentro dos próprios Estados Unidos, inclusive entre membros do Partido Republicano.
“Não é possível que os republicanos não vejam os absurdos que esse homem está cometendo. Não é possível que aceitem isso, a não ser que sejam pessoas que não pensam, não refletem e não têm visão de mundo”, afirmou.

Questionado sobre a nova ordem internacional e as tensões entre Estados Unidos, Rússia e China, o bispo defendeu o diálogo entre as lideranças mundiais e lamentou o enfraquecimento das instituições internacionais.
“É importante que haja um entendimento entre os líderes mundiais. Vários países já se manifestaram contra essa ocupação da Venezuela. É uma pena que a ONU esteja tão desgastada e sem poder, pois deveria ser uma instância de apaziguamento e orientação. Infelizmente, está do jeito que está”, avaliou.

Em sintonia com o apelo do Papa Francisco, Dom Luiz espera que líderes globais se posicionem em defesa da soberania venezuelana.
“O presidente [Donald] Trump precisa ser questionado e alguém precisa detê-lo, porque não é possível colocar em prática tudo o que ele tem falado”, sublinhou.

O bispo também criticou a postura da Europa diante das medidas impostas pelos Estados Unidos, considerando o continente politicamente fragilizado.
“A Europa está muito enfraquecida. Aceitou tarifas que não deveria ter aceitado”, afirmou, embora reconheça que o bloco ainda desempenha um papel relevante no cenário internacional.
“Os países europeus precisariam se unir para assumir uma posição mais enérgica e firme diante do que está acontecendo”, completou.

Ao abordar os conflitos globais, Dom Luiz Lisboa chamou atenção para as guerras esquecidas, especialmente em África, motivadas pela exploração de recursos naturais.
“Quando falamos de Cabo Delgado, em Moçambique, onde vivi e fui bispo, há cerca de um milhão de deslocados. Isso já é um absurdo. Mas, no Sudão, são 13 milhões de refugiados, e não se fala nessa guerra”, lamentou.

Ele também recordou a invasão da Ucrânia pela Rússia, destacando que o conflito está ligado à busca por poder e riqueza.
“É muito triste. Guerra por causa de poder económico, por causa de ganância. É isso que está acontecendo”, afirmou.

Embora não esteja mais à frente da Diocese de Pemba, em Moçambique — função que exerceu entre 2013 e 2021 —, Dom Luiz garantiu que continua acompanhando de perto a realidade africana e mantendo contato com o atual bispo, Dom António Juliasse.
“Falo muito sobre África. Saí de lá há quase cinco anos, mas África nunca vai sair de mim. A experiência que vivi foi muito importante, aprendi muito e gostei muito. Tudo o que posso fazer para ajudar, eu faço”, concluiu.

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Autor:

Diocese Cachoeiro

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