Gato preto atravessando o caminho, passar debaixo de uma escada, levantar da cama com o pé esquerdo ou carregar uma pata de coelho para atrair sorte. Ao longo dos anos, muitas crenças populares foram associadas à ideia de azar ou de boa sorte. Entre elas, uma das mais conhecidas é a chamada sexta-feira 13, considerada por algumas pessoas um dia marcado pelo mau agouro.
Apesar da fama, inúmeras situações difíceis vividas pelas pessoas ao longo da história não têm qualquer relação com essa data específica. Mesmo assim, a superstição continua presente em diferentes culturas e tradições, alimentando receios e curiosidades no dia.
Mas, afinal, qual é o significado de uma sexta-feira 13 para os católicos?
Segundo o doutor em Teologia, padre Juliano Ribeiro Almeida, a fé cristã não reconhece qualquer fundamento nessas crenças. Para ele, a ideia de que determinados dias possam trazer azar não passa de superstição e não encontra respaldo na doutrina da Igreja.
“A Igreja Católica, a Bíblia e a fé cristã não aceitam qualquer superstição. Dizer que um dia é um dia azarado é superstição. É acreditar que números têm uma força própria, como se o número treze ou a coincidência de sexta-feira com o dia 13 trouxesse alguma maldição”, explicou.
De acordo com o presbítero, esse tipo de pensamento não nasce da tradição cristã. A associação entre datas e mau agouro, segundo ele, tem origem em outras tradições culturais e esotéricas.
“Essa ideia de dias específicos ligados ao azar vem da Cabala judaica, que é uma tradição não cristã e marcada por elementos supersticiosos”, destacou.
Padre Juliano explica ainda que a própria fé cristã oferece uma compreensão diferente sobre o tempo. Para os cristãos, a história foi transformada pela encarnação de Jesus Cristo.
“Nós cristãos cremos na encarnação de Deus. O Filho de Deus entrou na história. Os Santos Padres da Igreja diziam que tudo o que o Verbo tocou, Ele redimiu. Por isso, essa ideia de que existem tempos ruins, dias de azar ou datas carregadas de maldição não faz sentido para quem crê em Cristo”, afirmou.
Segundo o sacerdote, Deus habita na eternidade, fora do tempo. No entanto, ao se encarnar, assumiu também a realidade do tempo humano.
“Na encarnação, Deus entrou no tempo. Por isso, todo o tempo foi santificado”, explicou.
Ele acrescenta que os cristãos não vivem apenas o chamado tempo cronológico, medido pelos relógios e calendários. Pela fé, também participam do que a tradição cristã chama de kairós, palavra grega que significa o tempo de Deus, o tempo da graça.
“Nós vivemos aqui na Terra no tempo do relógio, mas, pela fé, participamos também do tempo de Deus. Isso é mais um motivo para não termos medo”, disse.
Dentro dessa perspectiva, o próprio conceito de sorte ou azar também não encontra espaço na fé cristã. Para padre Juliano, a vida do cristão é marcada pela confiança em Deus e em seus desígnios.
“Não existe sorte nem azar. Existem os desígnios de Deus para nós. Nós confiamos que Deus é amor e que tudo está sob o seu cuidado”, explicou.
O sacerdote também alerta para um equívoco comum presente em muitas superstições: a ideia de que o bem e o mal seriam forças equivalentes.
“Muitas pessoas falam como se Deus e o diabo fossem duas forças paralelas, no mesmo nível. Mas, para os cristãos, não é assim. O que existe é o bem. O mal é a ausência do bem, assim como as trevas são a ausência de luz”, afirmou.
Para os cristãos, inclusive, a sexta-feira possui um significado profundamente espiritual. Foi justamente nesse dia da semana que, segundo a tradição cristã, Jesus Cristo morreu na cruz.
“Para nós, a sexta-feira é um dia santo, um dia de penitência. Todas as sextas-feiras do ano a Igreja convida os fiéis a fazer algum gesto de penitência. Tradicionalmente, sugere-se a abstinência de carne vermelha, mas isso pode ser substituído por outras práticas”, explicou.
Diante disso, padre Juliano orienta que os fiéis não alimentem medos baseados em superstições. O cristão, segundo ele, é chamado a viver sustentado pela virtude da esperança, recebida no batismo, e a confiar plenamente em Deus.
“Nós não devemos ter medo de nada, a não ser do pecado grave, do pecado mortal. Essa é a única coisa que deve realmente preocupar o cristão, porque é o que pode nos afastar de Deus”, concluiu.