Festa da Charola de São Sebastião mantém viva tradição religiosa e cultural em Jacu

No último domingo, 18 de janeiro, a comunidade de Jacu, no interior de Cachoeiro de Itapemirim, vivenciou mais uma edição da tradicional Festa de Entrega da Charola de São Sebastião, celebração que reafirma a fé, a memória coletiva e a identidade cultural da região. O evento, realizado anualmente, é organizado pelo grupo local responsável pela salvaguarda do folguedo, uma das manifestações mais singulares da religiosidade popular capixaba.

A Charola de São Sebastião é um folguedo religioso-cultural que se estrutura em forma de procissão cantada. Devotos percorrem casas, igrejas e espaços comunitários levando símbolos do santo e entoando versos que narram sua vida, seu martírio e sua proteção aos fiéis. A tradição, preservada principalmente por famílias da comunidade, atravessa gerações e mantém viva uma prática que integra espiritualidade, música e oralidade.

Entre os principais guardiões da Charola está Adílio Quirino da Silva, um de seus mestres, que destaca o caráter de compromisso e devoção presente na manifestação. “Enquanto eu tiver saúde, nunca vou deixar de realizar esses encontros com meus companheiros de jornada, em louvor e agradecimento a São Sebastião”, afirma. Ele atua ao lado da esposa, Erotildes Pereira da Silva, também mestra da tradição, com quem divide a responsabilidade de transmitir os saberes do folguedo.

Segundo o coordenador da Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense, Genildo Coelho, a Charola guarda semelhanças com a Folia de Reis e tem como significado original a ideia de “procissão”. O grupo é composto por integrantes da família Quirino, entre músicos, cantores, bandeireira e dançarinas, que peregrinam por diversas comunidades da região. No dia 18, a programação teve início às 6h e se estendeu até a noite, com a realização da festa aberta ao público e a apresentação do tradicional grupo de Bate Flechas de São Sebastião, que recebeu outros grupos convidados do sul do Espírito Santo.

Além da celebração principal, nos dias que antecedem e sucedem o 18 de janeiro, a Charola percorre a comunidade em peregrinação, das 6h às 18h, visitando residências e cantando a história do santo. Para Genildo, trata-se de uma manifestação rara. “É uma festa única, uma das últimas charolas em atividade no Espírito Santo. É um folguedo que corre o risco de desaparecer e que precisa do apoio do poder público para ser preservado”, afirma. Entre as iniciativas em estudo está o encaminhamento de um processo para o reconhecimento da festa como patrimônio cultural imaterial do Espírito Santo.

No mesmo dia, Jacu também sediou o Encontro de Bate Flechas de São Sebastião, que reuniu diversos grupos do sul capixaba dedicados a essa expressão cultural. No ritual, os participantes utilizam flechas de madeira, batidas de forma ritmada enquanto entoam cânticos em homenagem ao santo, simbolizando fé, força e proteção. Tanto a Festa da Charola quanto o Encontro de Bate Flechas integram o calendário de ações do Pontão de Cultura, contribuindo para a valorização e a salvaguarda do patrimônio imaterial regional.

A importância da Charola de São Sebastião também está registrada no livro “As Flechas de São Sebastião”, disponível para download no site da Associação de Salvaguarda do Patrimônio Imaterial Cachoeirense. A obra é resultado de pesquisa coordenada por Genildo Coelho, com texto de Rosângela Venturi Barros e fotografias de Luan Faitanin Volpato, e reúne registros históricos, relatos e imagens que ajudam a preservar a memória dessa tradição singular.

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Autor:

Diocese Cachoeiro

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