Livro expõe sofrimento psíquico de padres e pastores e rompe silêncio no ambiente religioso

Às vésperas de completar 25 anos de ministério presbiteral, no próximo dia 17 de março de 2026, o padre José Carlos Ferreira da Silva decidiu tornar público um tema ainda pouco debatido no ambiente religioso: o sofrimento psíquico vivido por padres e pastores no exercício da missão pastoral. Presbítero da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, Vigário Episcopal para a Comunicação e pároco da Paróquia Nosso Senhor dos Passos, ele lança o livro “Feridas Invisíveis: a realidade do sofrimento psíquico em padres e pastores decorrente da prática pastoral”.

A obra reúne reflexões construídas a partir da trajetória humana, pastoral e acadêmica do autor, que é jornalista, psicólogo, especialista em neuropsicologia e mestre em Ciências da Religião. O livro tem origem em sua dissertação de mestrado e em mais de dez anos de acompanhamento de ministros religiosos em diferentes regiões do país, sem a intenção de acusar instituições ou idealizar a dor, mas de dar visibilidade a uma realidade recorrente e muitas vezes silenciada.

Em entrevista concedida à jornalista Anete Lacerda, o padre falou abertamente sobre cansaço, solidão e sobrecarga emocional, desconstruindo a imagem do líder espiritual sempre forte e imune ao sofrimento. Segundo ele, reconhecer as próprias fragilidades não diminui a vocação sacerdotal, mas aprofunda a capacidade de escuta e de cuidado com o outro. “O sofrimento não é sinal de falta de fé”, pontua, destacando que a dor psíquica não pode ser interpretada como ausência de Deus ou punição divina.
Ao longo da entrevista, José Carlos observa que ainda persiste no senso comum religioso a ideia de que quem sofre espiritualmente “não rezou o suficiente”. No entanto, o livro demonstra que fatores como solidão afetiva, excesso de responsabilidades, culpa, esgotamento emocional e dificuldade de pedir ajuda formam um quadro silencioso que, se ignorado, pode levar ao adoecimento.

Para o presbítero, sofrer não é sinônimo de doença, mas negar ou esconder o sofrimento pode agravar quadros emocionais e físicos. Entre as chamadas “feridas invisíveis” mais frequentes estão a pressão por perfeição espiritual, o medo de decepcionar a comunidade e a exigência permanente de força. Quando não conseguem sustentar esse ideal, muitos ministros passam a transformar a dor em culpa.

O autor também chama atenção para o silêncio institucional em torno do sofrimento psíquico de líderes religiosos, muitas vezes abafado pelo receio de escândalos ou da perda de autoridade moral. Embora reconheça avanços pontuais, ele avalia que ainda falta uma cultura consistente de cuidado que reconheça a humanidade de quem exerce o ministério. “Cuidar da missão sem cuidar de quem a sustenta é uma fragilidade que precisa ser enfrentada”, afirma.

No livro, José Carlos defende que fé e psicologia não são campos opostos, mas complementares. A espiritualidade, segundo ele, pode ser fonte de sentido e esperança, mas também pode ferir quando utilizada para negar a dor. “Espiritualizar o sofrimento sem escuta é uma forma de abandono disfarçado de piedade”, ressalta.

A publicação traz relatos de ministros admirados pelas comunidades, mas profundamente exaustos, alguns só interrompendo a rotina quando o corpo adoeceu, outros enfrentando conflitos familiares intensos. Para o autor, quando o sofrimento não encontra espaço de escuta, acaba se manifestando de outras formas.

Entre os caminhos apontados estão a formação humana integrada à teológica, o acompanhamento psicológico preventivo, a criação de espaços institucionais de escuta, a revisão das cargas de trabalho e a valorização do autocuidado. O padre também destaca o papel dos fiéis, lembrando que reconhecer limites, evitar cobranças irreais e cultivar relações de corresponsabilidade são atitudes fundamentais. “O cuidado pastoral é uma missão compartilhada”, enfatiza.

Ao final, a mensagem central do livro é clara: sofrer não apaga a vocação e pedir ajuda não representa fracasso espiritual, mas maturidade e fidelidade ao chamado. Para José Carlos Ferreira da Silva, o silêncio prolongado é o que mais adoece. Sua trajetória, iniciada ainda aos 18 anos e marcada pela escuta, pela comunicação e pelo cuidado pastoral, sustenta a proposta da obra: recordar à Igreja que seus pastores também são humanos, têm limites e precisam de cuidado — e que essa humanidade, longe de ser um problema, é parte essencial da missão.

 

 

Descrição editorial

Esta obra investiga a presença do sofrimento psíquico entre ministros religiosos cristãos envolvidos no trabalho pastoral e suas possíveis relações com a organização eclesial, à luz da psicologia e da psicodinâmica do trabalho. Partindo de uma pesquisa bibliográfica fundamentada em artigos científicos, livros e revistas especializadas, o autor propõe uma análise crítica e sensível de uma realidade frequentemente silenciada no campo religioso.

O estudo se estrutura em três eixos principais: o primeiro examina a existência — ou não — de um sofrimento psíquico comum entre ministros religiosos no exercício do pastoreio e suas relações com a organização do trabalho pastoral e eclesial; o segundo diferencia o sofrimento humano do sofrimento psíquico, buscando identificar como este se manifesta no cotidiano do cuidado pastoral; e o terceiro analisa a influência dos líderes religiosos no contexto religioso contemporâneo, a exposição às cargas psíquicas inerentes ao ministério e os impactos da organização eclesial sobre a saúde mental desses trabalhadores.

Ao descrever os tipos de sofrimentos psíquicos, suas possíveis causas e consequências para a vida pessoal e ministerial dos ministros religiosos cristãos, a obra também aponta desafios e caminhos possíveis para a superação desse sofrimento. Trata-se de uma contribuição relevante para o diálogo entre teologia, psicologia e ciências da religião, oferecendo subsídios para a reflexão crítica sobre o cuidado de quem cuida no contexto das igrejas cristãs.

 

Dados da obra

Autor: José Carlos Ferreira da Silva
Ano: 2024
Editora/Selo: Dialética
ISBN: 978-65-270-3330-1
Páginas: 140
Capa: Flexível

Link para aquisição: https://loja.editoradialetica.com/humanidades/feridas-invisiveis-a-realidade-do-sofrimento-psiquico-em-padres-e-pastores-decorrente-da-pratica-pastoral?srsltid=AfmBOortkOWCfNuX-fgzZ1hQegJ-rsl1i3OtB6ZYjJc4zSukEqiOpZfu

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Autor:

Diocese Cachoeiro

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